26.4.09

Ser muçulmano está na moda

O protesto de um alemão muçulmano contra a publicação das caricaturas de Maomé e as reações violentas a ela se transformou numa grife que está conquistando os jovens muçulmanos da Europa


INOVADOR
Melih Kesmen decidiu protestar contra as caricaturas do profeta Maomé e contra as manifestações violentas

Melih Kesmen é um muçulmano de 33 anos que trabalha como designer na pequena cidade de Witten, na Alemanha. Ao contrário de 87% dos 3,2 milhões de seguidores do Islã que vivem no país, Kesmen nasceu na Alemanha, e se considera um “muçulmano europeu”. Em 2005, quando morava em Londres, foi um dos milhões de muçulmanos que sentiu ofendido com as caricaturas de Maomé publicadas pelo jornal dinamarquês Jyllands-Posten. A reprodução do profeta é proibida no Islã, e a publicação, repetida por diversos outros jornais europeus, serviu para acirrar ainda mais a conturbada convivência do mundo ocidental com os muçulmanos. Kesmen, abalado tanto pela publicação das imagens quanto pelas violentas reações do outro lado do mundo, decidiu protestar. E hoje a manifestação se tornou a grife StyleIslam, que vem conquistando cada vez mais os jovens muçulmanos europeus, como Kesmen, com mensagens pacíficas.



NA MODA
À esquerda, a ideia que deu origem à grife: "eu amo meu profeta". À direita, uma defesa do "hijab", o véu muçulmano que causa polêmica na Europa: "Hijab, meu direito, minha escolha, minha vida"

Leia a matéria na íntegra na Revista Época


16.1.09

Perda de Terra Palestina de 1946 a 2000


O mapa acima indica a perda de terra palestina de 1946 a 2000. As terras palestinas estão marcadas em verde.

Interrompendo a Guerra Criminosa de Gaza

Por Peter G Cohen – 10 de Janeiro de 2009


O ataque israelense sobre a população de Gaza é contra os Princípios de Nuremberg, os Acordos de Genebra e a Carta das Nações Unidas. É inquestionavelmente um crime de guerra e os Estados Unidos participou.
Os EUA consentiram, se não aprovaram essa guerra. Forneceu os planos e as bombas que Israel usa para destruir a população de Gaza.
De fato, forneceu bombas de perfuração de blindagem de urânio empobrecido (DU), embora os palestinos não tenham blindagem! Não estamos apenas matando civis de todos os sexos e idades, estamos envenenando sua terra e seus genes por gerações.

A participação dos Estados Unidos nesse massacre é bem conhecida.
Nos custará muito a longo prazo, porque está fazendo com que mais pessoas sejam voluntárias para ataques suicidas e outras a apoiar organizações terroristas. Encorajará o ódio aos americanos que forneceram todo tipo de apoio a Israel e até rejeitaram um cessar-fogo até que a situação mude, o que significa até que mais dos membros eleitos do Hamas e seus apoiadores tenham sido mortos.

O que podemos fazer? Primeiro podemos nos educar sobre a verdadeira história de Gaza, as violações contínuas das ordens do Conselho de Segurança da ONU por parte de Israel, as armas e táticas que nossa nação forneceu. A maioria das pessoas que apóia Israel tão cegamente não conhece os fatos. E essas mesmas pessoas não entendem que nossa indulgência cega a Israel criou um monstro que é detestado por muitos de seu próprio povo, como mostrado pela demonstração de 10.000 israelenses contra a guerra semana passada.

O único meio de nós americanos podermos lavar o sangue de nossas mãos é pressionando nosso governo para terminar a guerra e pôr fim ao apoio a Israel, até que páre de ser uma nação violenta e perigosa e se torne um membro cooperativo e em busca da paz da Família das Nações. Por favor, deixe nossos representantes saberem como se sente.

Peter G Cohen, artista e ativista, é o autor de www.nukefreeworld.com e de numerosos artigos na internet. Email: aerie2@verizon.net

Ativistas palestinos, judeus e outros ativistas locais fecham consulado israelense

São Francisco – Um grupo de nove ativistas – palestinos, judeus anti-sionistas e ativistas dos direitos dos imigrantes – bloquearam a entrada do consulado israelense às 8:30 do dia 15 de janeiro de 2009, em um protesto não-violento ao apartheid israelense e seus atuais ataques em Gaza.


Os ativistas se acorrentaram usando algemas e cadeados, fecharam as portas do prédio e em torno de mais 40 pessoas se uniram a eles em apoio. A ação foi organizada em conjunto por palestinos e judeus locais em apoio a: um cessar-fogo imediato, a abertura de fronteiras terrestres, marítimas e aéreas para permitir suprimentos de emergência, e um fim ao suporte financeiro e político dos EUA a Israel.

“Pelos últimos sessenta anos Israel tentou elimintar o povo palestino forçando-o a sair de suas casas e de suas terras, fazendo-os passar fome e matando-os,” disse Maria Poblet, uma ativista de direitos dos imigrantes. “Os cercos e ataques recentes em Gaza não são uma exceção, mas um lembrete brutal de que a matança de civis é uma parte regular da estratégia israelense.”

Organizadores afirmam que a atual situação em Gaza não é um conflito entre dois povos de capacidades equivalentes, nem o motivo de Israel é a autodefesa. “Por um ano e meio Israel impôs sanções sufocantes sob a desculpa de atingir o Hamas, subjugando a população inteira pela falta de comida, água, medicamentos e outros recursos vitais,” afirmou Monadel Herzallah da Rede de Comunidades Palestina dos Estados Unidos. "Os recentes ataques por terra e ar são outro golpe brutal para a população de Gaza que já está preso em um campo de concentração de desespero e pobreza crescente.”

A organizadora Sara Kershnar, da Rede Judaica Anti-sionista Internacional, resumiu o sentimento: “Hoje, como palestinos, judeus e nossos aliados unidos, deixamos clara a nossa posição: estamos de um lado, o lado da justiça; Israel, um estado de apartheid, está no outro.”


Fotos disponíveis em
http://www.flickr.com/photos/34399309@N02/

*Contato:* Harris Kornstein, (510) 343-6065, harris.kornstein@gmail.com
*Vídeo, áudio, e fotos disponíveis.*
*
Disponível para entrevistas:*

Monadel Herzallah, (408) 849-7977
Nadeen Elshorafa, (310) 951-5465
Maria Poblet, (510) 725-9646
Sara Kershnar, (510) 685-5347


NOTA: Versão editada. A mensagem original, em inglês, pode ser lida abaixo na íntegra:

*******************************************************************************

*FOR IMMEDIATE RELEASE*
January 15, 2009

*Contact:* Harris Kornstein, (510) 343-6065, harris.kornstein@gmail.com
*Raw video, audio, and photos available.*
*
Available for Interviews:*

Monadel Herzallah, (408) 849-7977
Nadeen Elshorafa, (310) 951-5465
Maria Poblet, (510) 725-9646
Sara Kershnar, (510) 685-5347

*
Palestinian, Jewish, and Other Local Activists Shut Down Israeli Consulate*

SAN FRANCISCO – A group of nine activists – Palestinian, anti-Zionist
Jewish, and immigrant rights activists – blocked the entrance of the Israeli
Consulate beginning at 8:30am today, in nonviolent protest of Israeli
apartheid and its current attacks on Gaza. The activists chained themselves
together using handcuffs and locks, locked the doors to the building, and
were joined by a diverse rally of over 40 supporters. The action was
organized jointly by local Palestinians and Jews in support of: an immediate
ceasefire; the opening of land, sea, and air borders to allow in emergency
supplies; and an end to US financial and political support for Israel.

"For the past sixty years, Israel has tried to eliminate the Palestinian
people by forcing them out of their homes and off their lands, starving
them, and killing them," said Maria Poblet, an immigrants' rights
organizer. "The recent blockades and attacks in Gaza are not an exception,
but a brutal reminder that killing civilians is a regular part of Israeli
strategy."

Linked arm in arm, Bay Area Jews, Palestinians and social-justice activists
aim to increase pressure on Israel and its supporters in the face of the
21-day siege on Gaza and the growing humanitarian crisis. All nine
activists were arrested after about two hours, charged with trespassing, and
allowed to leave. This action is one in a series that has moved from
Toronto, to New York, to Los Angeles.

Organizers assert that the current situation in Gaza is not a conflict
between two peoples of equivalent capacities, nor is Israel's motive
self-defense. "For the past year and a half, Israel has enacted strangling
sanctions under the guise of targeting Hamas, collectively starving the
entire population of food, water, medicine, and other vital resources,"
stated Monadel Herzallah of the United States Palestinian Community Network.
"The recent air and ground strikes are another brutal blow to Gazans who are
already trapped in a concentration camp of despair and growing poverty."

Activists also spoke out against the US pledge of more than $3 billion each
year in unrestricted aid to Israel. "Israel's use of US aid and military
equipment violates our own laws. We can choose to uphold US and
international laws, or ignore them as we are now doing at the peril of our
conscience and our place among all of humanity," said Nadeen Elshorafa of
the General Union of Palestinian Students.

Organizer Sara Kershnar of the International Jewish anti-Zionist Network
summed up the sentiment: "Today, as Palestinians, Jews, and our united
allies, we make our position clear: we are on one side, the side of justice;
Israel, an apartheid state, is on the other."

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[image: L-R: Nadeen Elshorafa, Monadel Herzallah, Sara
Kershnar]<http://www.flickr.com/photos/34399309@N02/>

more photos available at: http://www.flickr.com/photos/34399309@N02/

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*Profiles of Demonstrators*

* Monadel Herzallah *(Fairfield, CA) is a labor activist with family in
Gaza. Early this week, Monadel lost his 21-year old cousin Mohammad to
Israeli violence. Monadel is the national coordinator of the US Palestinian
Community Network. Contact: (408) 849-7977

* Nadeen Elshorafa* (San Francisco) is a Palestinian activist whose family
is from Gaza. Nadeen grew up in Egypt and is now getting a masters in
international studies at San Francisco State University. Contact: (310)
951-5465

* Andrea Salinas *(San Francisco) is a California native of Mexican descent.
She works toward ending societies' reliance on the prison industrial complex
and toward creating real community safety.
Contact: (415) 203-4948

* Maria Poblet* (Berkeley) is a Latina immigrant rights organizer and poet
who grew up in Argentina.
Contact: (510) 725-9646

* Heba Nimr* (Oakland) is a Palestinian-Egyptian lawyer and mediator.

* Marisol Arriola *(Berkeley) is a Mexican-American from a family of
farmworkers. Marisol has been in the bay area for 15 years where she has
worked as a union organizer, youth organizer, and advocate/caseworker for
survivors of domestic violence and their families. She has served as a human
rights monitor in the West Bank and Gaza Strip areas of Palestine. She is a
member of SUSTAIN, Stop U.S. Tax Aid To Israel, and is currently a graduate
student in the department of Social Work. Contact: (510) 485-4136

* Greg Hom *(San Francisco) is Jewish and Chinese, works in libraries, and
is currently focusing his political work on ending Israeli apartheid. Greg
is a member of the International Jewish anti-Zionist Network.

* Mich Levy *(Oakland) is a teacher whose Jewish family immigrated to the US
in the face of pogroms of Eastern Europe. Mich is a founder and organizer
with the International Jewish anti-Zionist Network. Contact: (415) 430-8043

* Sara Kershnar *(Berkeley) is an anti-violence organizer. Her Jewish family
emigrated to New York City in flight from the pogroms of Eastern Europe and
after generations of flight starting with the Spanish inquisition. Sara is a
founder and organizer with the International Jewish anti-Zionist Network.
Contact: (510) 685-5347

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*Fact Sheet on Gaza and Israeli Apartheid*

* THE PEOPLE OF GAZA: *Nearly 1.5 million Palestinians live in Gaza, many of
them concentrated in one-half of the territory. In this area, the population
density is nearly 20,000 people per square mile, one of the highest in the
world. More than three quarters of Gaza's residents are refugees who were
driven from their homes during past wars with Israel (in 1948 and 1967), and
their descendants. Israel has permanently barred their return. Over half of
these refugees still reside in Gaza's eight refugee camps. (BBC,
http://news.bbc.co.uk/2/hi/middle_east/5122404.stm)
*
THE OCCUPATION OF GAZA: *The Gazans have lived under Israeli occupation
since the Six-Day War in 1967. Israel is still widely considered to be an
occupying power, even though it removed its troops and settlers from the
strip in 2005. Israel still controls access to the area, imports and
exports, and the movement of people in and out. Israel has control over
Gaza's air space and sea coast, and its forces enter the area at will. As
the occupying power, Israel has the responsibility under the Fourth Geneva
Convention to see to the welfare of the civilian population of the Gaza
Strip. ("What You Don't Know About Gaza", Rashidi Khalidi, New York Times,
January 7, 2009).

* THE BLOCKADE of GAZA:* Israel's blockade of the strip, with the support of
the United States and the European Union, has grown increasingly stringent
since Hamas won the Palestinian Legislative Council elections in January
2006. Fuel, electricity, imports, exports and the movement of people in and
out of the Strip have been slowly choked off, leading to life-threatening
problems of sanitation, health, water supply and transportation. This
amounts to the collective punishment — with the tacit support of the United
States — of a civilian population for exercising its democratic rights.
(Khalidi, New York Times).
*
THE CEASE-FIRE: *Lifting the blockade, along with a cessation of rocket
fire, was one of the key terms of the June cease-fire between Israel and
Hamas. This accord led to a reduction in rockets fired from Gaza from
hundreds in May and June to a total of less than 20 in the subsequent four
months (according to Israeli government figures). The cease-fire broke down
when Israeli forces launched major air and ground attacks in early November;
six Hamas operatives were reported killed. (Khalidi, New York Times).

* WAR CRIMES: *Israel's current assault on the Gaza Strip cannot be
justified by self-defense. Rather, it involves serious violations of
international law, including war crimes. Senior Israeli political and
military leaders may bear personal liability for their offenses, and they
could be prosecuted by an international tribunal, or by nations practicing
universal jurisdiction over grave international crimes. ("Israel is
committing war crimes." George Bisharat, Wall Street Journal, January 10,
2009.)

* ISRAELI APARTHEID: *Former South African President Hendrick Verwoerd
observed as far back as 1961 that "Israel, like South Africa, is an
apartheid state." In Palestine, the Zionist goal of controlling as much land
as possible without Palestinians led to the large-scale expulsions of
1947-48 and 1967. Today, 92 percent of Israel's land is defined as the
"inalienable property of the Jewish people." Jews anywhere in the world have
a "right to return" and claim citizenship, while Palestinians who were
expelled from their homes are denied the "right to return" guaranteed by
international law. Former President Jimmy Carter defines apartheid as the
"forced separation of two peoples in the same territory with one of the
groups dominating or controlling the other." This accurately describes the
situation in the occupied West Bank, Gaza Strip and East Jerusalem, where
Israeli settlers and soldiers totally dominate the indigenous Palestinian
population. The policies Israel has implemented to carry out its 40-year-old
occupation of the West Bank and Gaza Strip and expropriate Palestinian land
closely mirror the "inhuman acts" that make up the UN Convention on the
"Crime of Apartheid." (US Campaign to End the Israeli Occupation, "Why
Apartheid Applies to Israel",
http://www.endtheoccupation.org/downloads/AAFWhyApartheid.pdf)



1.1.09

A conivência árabe no Massacre de Gaza


Por Alberto Cruz


Tradução de Mônica Muniz


Dezembro/2008 – Ceprid - Com a conivência, aquiescência e aprovação da ONU, da Europa, dos Estados Unidos e dos reacionários governos árabes, Israel envolveu-se numa campanha de extermínio, um holocausto contra os palestinos. Israel jamais quis a paz, somente a rendição. A visão israelense de qualquer processo de paz baseia-se numa lista de “não(s)”: não ao direito de retorno, não ao reconhecimento dos direitos históricos e políticos dos palestinos em Jerusalém, não ao desmonte dos assentamentos, não ao estado palestino soberano.

Com o objetivo final de impor sua própria visão de paz, Israel está inteiramente preparado para degradar a vida dos palestinos, limitando sua liberdade de movimento através de assassinatos e prisões, destruição de casas, universidades, mesquitas, hospitais e recursos agrícolas e pesqueiros. O cerco a Gaza é a prova clara do comportamento dos nazistas do século XXI: os sionistas. O massacre de Gaza é a prova clara dos novos SS: soldados sionistas. As alternativas para os palestinos são claras: abandonar o Hamas ou morrer, seja por meios militares, seja por meios “civis”, como o bloqueio e o cerco. Uma lição de democracia na mais pura forma pela “democracia do Oriente Médio” por excelência.

Para esta finalidade, Israel conta com seus melhores aliados que, apesar das aparências, não são os Estados Unidos e sim os reacionários regimes árabes. A Arábia Saudita e o Egito foram informados do ataque, conforme relatado pelo diário Al-Quds Al-Arabi, em sua edição de domingo, de 28/12. Uma hora antes de o ataque começar, a mídia saudita já acusava o Hamas pelo que acontecia, enquanto o jornal árabe Al-Sharq Al-Awsat, de Londres, publicava uma entrevista com Shimon Perez, dizendo que Israel não iria atacar Gaza e que os israelenses estavam “prontos para a paz”. Obviamente, uma entrevista que tem que ser encarada como uma manobra sionista com para permitir que o massacre fosse o mais completo possível, uma medida claramente explicada pelo repórter do jornal israelense Há’aretz, em sua edição daquele domingo.

Durante dias, os jornais israelenses relataram o “sinal verde” dado pelos regimes árabes para a eliminação dos principais líderes do Hamas. Assim como fizeram durante a Guerra do Líbano, no verão de 2006, os reacionários regimes árabes sentiram um arrepio gelado percorrer a espinha quando movimentos político-militares, como o Hizbollah, derrotaram o onipotente exército sionista, ou o Hamas, que venceu as eleições democráticas e resiste a um cerco que dura mais de ano e meio. Os reacionários regimes árabes podem aguentar uma derrota (como a que o Hizbollah impôs a eles, mas não podem se esquecer que graças àquela derrota o Plano de Paz aprovado por uma ineficiente e inoperante Liga Árabe implodiu em 2002), mas não a duas. E o Hamas não é o Hizbollah. É muito mais fraco e foi esta realidade que permitiu e estimulou o massacre. O caso mais óbvio é o do Egito, que reforçou o fechamento de Rafah, apenas uma semana antes do massacre sionista.

O secretário geral do Hizbollah, Hassan Nasrallah, está certo quando acusa esses regimes de colaboração e de agir no sentido de derrotar o “último vislumbre de resistência” ao projeto neocolonial apoiado pelo imperialismo no Oriente Médio. Ele sabe do que está falando porque isto já foi feito a eles em 2006. E, portanto, ninguém esquece que a arrogância israelense não tem limites e que a ONU permitiu que o regime sionista fizesse o que gosta, no domingo 28: enquanto o massacre sobre Gaza estava em curso, cinco aviões de guerra sionistas mais uma vez violaram o espaço aéreo libanês, voando sobre Nabatia, Marjaun, Jiam e Arqoub. O que fizeram os soldados da ONU? Como de costume, nada. Afinal, eles estão lá para proteger os israelenses, não os libaneses.


Os reacionários regimes árabes estão lá para se protegerem, não aos palestinos. Egito e Arábia Saudita conseguiram adiar para 31 de dezembro a “reunião de emergência” da ineficiente e inoperante Liga Árabe. Da mesma forma que fizeram no Líbano, eles preferiram dar tempo para que Israel acabasse ou enfraquecesse o Hamas, Para eles, aquela organização político-militar é o problema, não o regime sionista.'

O Egito jamais se esqueceu de que o Hamas se recusou a antecipar as eleições, conforme sugerido por Mubarak, com o objetivo de fortalecer Abbas. E, muito menos, aceitou que o Hamas se retirasse das conversações de “diálogo nacional”, até que o regime egípcio abrisse a fronteira com Rafah. O Egito não podia aceitar isto e este foi o motivo da aprovação realizado por Israel.

Porém, o mais miserável de todos os lideres árabes é Mahmoud Abbas, que se intitula “Presidente da Autoridade Palestina”, ao mesmo tempo em que acusa o Hamas de ser o responsável pelo massacre por ter-se recusado a ceder aos desígnios sionistas e ocidentais. Aproveitando-se da matança, ele já disse que assumirá a administração de Gaza se o Hamas for derrotado. Estamos lidando com um regime na Cisjordânia ao estilo de Vichy, tendo Abbas como seu general Pétain, servindo a Israel nazista do século XXI.

Lançar tais indivíduos no lixo da história é uma obrigação. Derrotar os regimes árabes reacionários é um direito. A solidariedade com os movimentos populares árabes e, principalmente com os sindicalistas (1) egípcios tem que ser prioridade para o movimento antiimperialista mundial.

E o mesmo pode ser dito a respeito dos governos europeus e dos Estados Unidos. A chama grega, como a olímpica, deve espalhar-se na causa pela paz e justiça social. O capitalismo oferece apenas um tipo de paz verdadeiramente democrática, a do cemitério

Notas:

(1) Hossam El-Hamalawy: "La resistencia en Egipto" http://www.nodo50.org/ceprid/spip.php?article265

Alberto Cruz é jornalista, analista político e escritor, especializado em relações internacionais.
Centro de Estudios Políticos para las Relaciones Internacionales y el Desarrollo (www.nodo50.org/ceprid)


Original em inglês: Arab Connivance in the Gaza Massacre



31.7.08

Banco sem pecados

Adaptar produtos financeiros ao Alcorão virou um bom negócio para os bancos ocidentais, que já lideram o mercado de títulos islâmicos. Sem cobrar juros e longe da especulação, eles obedecem os preceitos religiosos e já atraem até clientes que não seguem as leis do Islã

por Camila Hessel

Imagine um financiamento imobiliário em que as parcelas podem diminuir caso o imóvel se desvalorize. Ou um empréstimo bancário sem a cobrança de juros. Bom demais para ser verdade? Não para os clientes dos bancos islâmicos, que oferecem produtos e serviços compatíveis com a sharia, a lei religiosa que orienta não apenas os preceitos da fé, mas também o dia-a-dia (e as finanças) dos muçulmanos. Diz a sharia que dinheiro não pode gerar dinheiro e, portanto, estão proibidos a cobrança e o recebimento de juros. Pelas regras, "o dinheiro só existe para promover o desenvolvimento do mundo". Tradução: todo e qualquer recurso de um seguidor do Alcorão deve ser destinado a investimentos produtivos. Assim, o valor de qualquer produto financeiro deve refletir o de um bem tangível estabelecido como lastro. Se o preço de um imóvel hipotecado cai, por exemplo, o valor da hipoteca (ijara) seguirá na mesma direção. A relação entre banco e cliente é semelhante à de uma sociedade, em que lucro e prejuízo são compartilhados.

Mas as proibições não param por aí. Nenhum investimento pode ser direcionado a atividades vistas como pecado (haram). São condenadas pela sharia a fabricação e a comercialização de bebidas alcoólicas, carne de porco e armas. Jogos de azar, pornografia e todos os ramos da indústria do entretenimento, como o cinema e a televisão, também são atividades pecaminosas. É vetada ainda qualquer forma de especulação. "As finanças islâmicas são muito mais do que uma modalidade onde os juros são proibidos", afirma Angela Martins, diretora da área internacional do banco ABC Brasil. Apesar de ter capital árabe e uma subsidiária islâmica no Bahrein, o ABC é um banco comercial comum. Angela trabalha na instituição há 11 anos, interessou-se pelo assunto e o elegeu como tema de sua tese de mestrado, depois transformada no livro A Banca Islâmica (editora Qualitymark).


"A essência da banca islâmica é evitar que qualquer das partes envolvidas numa transação financeira leve vantagem", diz Angela. Por esse motivo, os bancos islâmicos estão sendo cada vez mais procurados por clientes que não seguem a religião de Maomé, especialmente no Reino Unido e em Dubai, onde a presença de grandes comunidades muçulmanas estimulou a oferta desse tipo de serviço. Nesses países, os clientes são atendidos tanto por bancos árabes quanto por ocidentais que seguem a sharia. Instituições como HSBC, Citibank, Deutsche Bank, Lloyds, Barclays e Merrill Lynch se lançaram nesse mercado em busca de um pedaço da riqueza muçulmana, turbinada, nos últimos anos, pela alta nos preços do petróleo. No começo, as iniciativas desses bancos eram dirigidas ao segmento de títulos emitidos por empresas e pelo governo para financiar grandes empreendimentos.

Chamados de sukuk, plural da palavra em árabe antigo utilizada para designar os cheques, esses papéis foram criados na década de 70, à semelhança dos títulos de dívida tradicionais, os bonds. Por todos os impedimentos envolvidos em seu desenho, os sukuk eram vistos como aberração fora do mundo muçulmano. Mas a explosão imobiliária em Dubai mostrou aos executivos de bancos europeus e americanos que eles eram a chave para o cofre de boa parte das fortunas do Oriente Médio. Isso porque grandes hotéis e parte da infra-estrutura portuária do emirado árabe foram financiados com sukuk e deram ótimos retornos aos seus investidores.

Há uma outra característica nos títulos islâmicos que chamou a atenção dos ocidentais: eles não são outorgados a empresas que tenham dívidas de mais de um terço de seu valor de mercado (medido pelo preço das ações ou pelo total dos ativos, quando a empresa não é de capital aberto). Quando se deram conta de que essa restrição havia livrado investidores fiéis ao islã dos prejuízos com a bolha da internet, os analistas financeiros se convenceram de que valia a pena tirar esse mercado das sombras. De acordo com a agência de classificação de risco Standard & Poors, os sukuk já movimentaram US$ 500 bilhões e devem superar US$ 1 trilhão até o final da década. O volume de recursos captados com sukuk cresceu 74%, de 2005 para 2006, e 114% em 2007. A participação dos bancos internacionais saltou junto. Se, em 2006, apenas HSBC e Merrill Lynch figuravam entre os dez maiores financiadores das operações, em 2007, Citibank, Deutsche Bank, Standard Chartered e Barclays entraram para a lista.

O grande impulso veio em 2001, como conseqüência dos ataques de 11 de setembro. O preconceito generalizado contra os muçulmanos se refletiu no mercado financeiro e nos investimentos realizados por eles. Contas correntes foram congeladas, sob suspeita de financiamento de células terroristas. Bancos e fundos de investimento de capital árabe foram processados pelas famílias das vítimas do ataque às Torres Gêmeas, em Nova York, que os acusaram de financiar a Al-Qaeda. Estimativas levantadas por grandes bancos de investimento mostram que investidores árabes retiraram mais de US$ 800 bilhões de bancos americanos e europeus, entre setembro de 2001 e setembro de 2002.

SEM ESPECULAÇÃO
Regras que os bancos devem observar para operar de acordo com a sharia

JUROS>>> Há 1,4 mil anos, o profeta Maomé determinou que dinheiro não pode gerar mais dinheiro. Todos os recursos devem ser canalizados para investimentos produtivos. Qualquer lucro obtido de outra maneira é considerado usura. Por isso, um seguidor do islã não pode pagar ou receber juros.

ESPECULAÇÃO>>> Toda transação deve ser lastreada por um bem ou serviço que já exista e cujo valor seja determinado na assinatura do contrato, eliminando o risco de especulação (gharar). Os recursos investidos por um cliente são destinados à compra e venda de commodities. O lucro é compartilhado entre o cliente e o banco.

ENDIVIDAMENTO>>> Companhias com endividamento superior a um terço de seu valor não podem se beneficiar dos serviços de um banco islâmico.

ATIVIDADES IMPRÓPRIAS>>> Bancos não podem investir em atividades condenadas pela sharia, como a produção e comercialização de bebidas, tabaco, armas e jogos, além de cinema e TV.


Para minimizar o preconceito e evitar que os bancos islâmicos sejam efetivamente utilizados para financiar atividades terroristas, uma série de medidas de supervisão foi posta em curso. Sediado em Londres, o Institute of Islamic Banking and Insurance coordena a discussão de iniciativas de monitoramento de dois aspectos principais: as remessas de dinheiro feitas por muçulmanos a seus países de origem e as doações a instituições de caridade islâmicas. O fluxo de recursos também é analisado segundo uma metodologia desenvolvida em 2003 pelo FMI, pelo Banco Mundial e pela Financial Action Task Force, força-tarefa mundial que previne a lavagem de dinheiro.

No Brasil, o banco ABC foi o único a captar recursos com produtos financeiros islâmicos. Angela Martins e um colega da sede do banco no Bahrein montaram o primeiro título de financiamento ao comércio exterior (murabaha), em 1997. O ABC fez vários deles no início da década, captando quantias entre US$ 10 milhões e US$ 15 milhões. Os contratos foram estruturados tendo como base operações de exportação de empresas brasileiras. "Hoje estamos costurando uma nova operação, de empréstimo sindicalizado", diz Angela. Há vários bancos envolvidos e a captação poderá superar US$ 100 milhões.


A construtora brasileira WTorre utilizou murabahas para financiar seu primeiro projeto nos Emirados Árabes. Trata-se da Desert Rose, um empreendimento com condomínios residenciais, torres de escritórios e centros comerciais em construção na cidade de Sharjah, vizinha a Dubai. O sócio local da WTorre, Najieb Khoory, afirma que a escolha foi motivada pela estrutura de sociedade que existe entre o cliente e o banco. "O financiamento islâmico garante uma proteção adicional", diz Khoory. "Como as condições são todas preestabelecidas e o risco compartilhado, há uma clara vantagem financeira." Khoory não revela o total captado até o momento, mas o valor do projeto é estimado em US$ 1 bilhão.

Em busca da simpatia de indivíduos com fortuna estimada em US$ 1,5 trilhão (segundo relatório da Capgemini e do Merrill Lynch), o HSBC foi um dos primeiros bancos internacionais a se lançarem nesse mercado, com a criação, em 1998, do HSBC Amanah. "No começo, nosso único foco eram os produtos corporativos", disse a Época NEGÓCIOS, de Dubai, Nabeel Shoaib, presidente regional do HSBC. "Hoje também trabalhamos com produtos de varejo", diz Shoaib. O HSBC Amanah tem sede em Dubai e agências na Malásia, Arábia Saudita, em Cingapura e no Reino Unido.

Nenhuma tarifa é cobrada pelo gerenciamento de uma conta corrente, por exemplo. Os fundos de investimento (mudharaba) estabelecem antecipadamente como e em que produtos os recursos do cliente serão investidos. O banco se encarrega de comprar e, posteriormente, de vender esses produtos. O lucro obtido com a transação é dividido com o cliente, numa proporção determinada no fechamento do contrato. Para uso de cartão de crédito, o correntista paga uma taxa mensal pelo processamento dos pagamentos. Os seguros (takaful) prevêem a garantia conjunta do bem segurado. Assim, cliente e banco compartilham tanto os lucros quanto as perdas da operação. Para que possa ser comercializado pelo banco, um produto precisa ser aprovado por um conselho de estudiosos da sharia, o sharia board. Religiosos especializados em finanças avaliam cada detalhe para certificar aos investidores que nenhuma regra foi quebrada. Os "selos de aprovação" são chamados fatwa. Só assim o cliente do banco islâmico pode ter certeza de que seu dinheiro não será investido em algo proibido.

O xeque Hussein Hamid Hassan, 76 anos, é o maior expoente dos estudiosos da sharia. Nascido num vilarejo pobre do Egito, é formado em direito pela Universidade de Al-Azhar, no Cairo, e em economia pela Universidade de Nova York. Foi ele quem inventou o primeiro sukuk, em 1975. Antes disso, em 1963, atuou como consultor na criação do primeiro banco islâmico moderno, o Tabung Haji, da Malásia. "Naquele tempo, as pessoas achavam a idéia de um banco que não cobrasse juros tão absurda quanto uma destilaria de uísque sagrado", disse Hassan a Época NEGÓCIOS. Hoje ele preside os sharia boards de 15 bancos, incluindo o Deutsche Bank e o britânico Amiri Capital, e supervisiona o principal órgão regulador, a Accounting and Auditing Organization for Islamic Institutions, e a agência islâmica de classificação de riscos (rating).

GUARDIÃO DA SHARIA O xeque Hussein Hamid Hassan, 76 anos, atuou na criação do primeiro banco islâmico moderno. Hoje preside os sharia boards de 15 bancos e os ajuda a desenhar produtos de acordo com a lei islâmica

Especialistas como Hassan são raros. Além do conhecimento religioso, precisam ter domínio de finanças e fluência em inglês. O forte crescimento do mercado nos últimos cinco anos e a chegada dos bancos internacionais fazem com que os poucos estudiosos participem de um grande número de conselhos. Os mais experientes chegam a receber até US$ 100 mil por produto aprovado. Hassan diz que o importante é saber que os membros do conselho não têm nenhum tipo de influência no dia-a-dia da instituição. "Nossa única preocupação é assegurar que os produtos sejam compatíveis com a sharia." O maior banco islâmico do mundo é o Al Rajhi Bank, da Arábia Saudita, seguido pelo Kuwait Finance House, que atua no Oriente Médio, na Turquia e na Malásia. Dominic Selwood, que coordena a área de finanças islâmicas no Deutsche Bank, disse ao Financial Times que os produtos islâmicos são a principal fonte de inovação hoje. "Os bancos ocidentais irão investir para ter participação num mercado que já movimenta 1% dos ativos bancários do mundo."

ROUBANDO A CENA Bancos ocidentais começam a se destacar no ranking das instituições que operam com títulos islâmicos



Fonte: Época Negócios


A brasileira das finanças islâmicas


Por Camila Hessel

Ângela Martins trabalha em bancos há mais de vinte anos. Só no ABC Brasil, onde é diretora da área internacional, já são 11 anos. Foi em seus primeiros anos no banco de capital árabe que ela tomou contato com os títulos financeiros que obedecem a preceitos religiosos e se apaixonou pelo assunto, que acabou virando o tema de sua tese de mestrado. Depois de trocar idéias com um colega na sede do banco ABC, que fica no Bahrain, ela visitou diversos bancos islâmicos no Oriente Médio. Católica, sem ascendência árabe, ela diz que o interesse sobre o assunto é estritamente profissional e que nunca pensou em se converter muçulmana. Ângela é autora do único livro em língua portuguesa sobre o assunto: A Banca Islâmica, da Editora Qualitymark. Conheça mais a respeito dessa escola financeira que é considerada uma das principais fontes de inovação no setor bancário na entrevista a seguir.

EN - Quais são as principais características das finanças islâmicas?
Ângela Martins -
Todas as estruturas são montadas em torno de um princípio fundamental que é o de evitar a especulação. Na banca islâmica, todas as escolas legais trabalham para evitar que quem tem dinheiro tire vantagem daquele que não tem - ou que precisa dele. Em muitas circunstâncias, os instrumentos são considerados semelhantes aos de bancos tradicionais justamente por que nem todos os produtos e serviços existentes num banco comum contêm elementos especulativos. Por outro lado, num banco islâmico não existem muitos produtos do mercado financeiro tradicional como, por exemplo, os derivativos. No fundo, o que um banco islâmico faz pode ser comparado ao comércio. Para todo título emitido existe um produto tangível por trás, um lastro. Isso porque tudo o que você quiser comprar ou vender é saudável dentro do islamismo.

EN - Mas a cobrança de juros é proibida, certo?
Ângela -
Diferentemente do catolicismo, em que o rico nunca vai para o céu, no islamismo, o dinheiro deve ser usado para fazer a economia crescer. Não há nada de errado em ganhar dinheiro, desde que sua atividade agregue algum tipo de valor. A única proibição é a de que dinheiro não pode gerar mais dinheiro. E assim, fica proibida a cobrança ou o recebimento de juros. No Islã, a crença é de que o dinheiro existe para circular. Ele precisa ser utilizado, posto para girar para que não seja consumido pelo zakah, que é uma espécie de imposto de renda. Não há nada de errado com o lucro, tampouco. Imagine que uma pessoa quer comprar um carro, mas não tem dinheiro. Você pode comprá-lo e revendê-lo para ela a prazo, cobrando um prêmio por isso. Esse tipo de transação é perfeitamente aceita e considerada justa. O que não se pode fazer é especular.

EN - Os produtos e serviços financeiros islâmicos passam por um processo de aprovação específico?
Ângela -
Sim, eles são avaliados por um conselho de estudiosos da lei islâmica, a sharia. Por isso esses órgãos são chamados de sharia boards. E é nos sharia boards que reside uma das grandes dificuldades da banca islâmica hoje, que é a carência de padronização. E por que isso? Porque muitos bancos têm seus conselhos formados por estudiosos de escolas legais diferentes. Existem cinco escolas principais: hanafitas, malequitas, chafeitas, hambanitas e jafaritas. Cada uma delas tem entendimentos diferentes a respeito de diversas questões. Conseqüentemente, o que um determinado estudioso considera compatível com a lei islâmica pode ser tido como inadequado por outro.

EN - Em que países as finanças islâmicas estão mais disseminadas?
Ângela -
Muito embora tenham florescido na região do Golfo, em países como Arábia Saudita e Bahrain, a Malásia é um centro de desenvolvimento de produtos muito importante. O primeiro sukuk (título islâmico formatado à semelhança de um título de dívida tradicional, também conhecido como bond), por exemplo, nasceu lá, como um produto para o mercado local. Em países onde a comunidade muçulmana é relevante, a banca islâmica também tem uma presença forte, como no Reino Unido, por exemplo.

EN - Algumas estatísticas, como a apresentada pelo segundo maior banco islâmico do mundo (a Kuwait Financia Bose) revela que 40% de seus clientes na Malásia não são seguidores da fé islâmica. Que atrativos os não-muçulmanos vêem nas finanças islâmicas?
Ângela -
Os investidores de bancos convencionais se sentem atraídos pelas finanças islâmicas por que as enxergam como uma forma mais ética de fazer banco. Existe uma percepção de que há uma preocupação maior com o cliente, um cuidado, visto que a estrutura de sociedade torna o banco um devedor solidário do cliente. Eles partilham os resultados da transação, tanto no ganho quanto nas perdas. É um modelo mais ético, acho que a palavra é mesmo essa. Além disso, o islamismo é a religião que mais cresce no mundo. É natural, portanto, que haja um interesse crescente em entender e seguir os preceitos dessa religião.

EN - O que acontece com o cliente de um banco islâmico que deixa de pagar a prestação de um financiamento, por exemplo?
Ângela -
Normalmente, não se cobra nenhuma taxa. Mas as condições variam de uma instituição para outra. De toda maneira, as condições são sempre detalhadamente negociadas no momento da celebração do contrato. Então, se o banco decidir cobrar uma taxa de processamento da cobrança, por exemplo, sua incidência e seu valor terão sido negociados previamente. Mas isso é muito raro. De modo geral, o banco corre o risco de inadimplência. É esperado dele, aliás, que corra esse risco. É justamente por isso que se percebe que o trabalho de financiamento que ele faz agrega algum tipo de valor.

EN - E como funciona o processo de avaliação de crédito de um cliente?
Ângela -
É semelhante ao de um banco tradicional, mas um pouco mais complexo. A avaliação do objeto do contrato, do projeto que se quer desenvolver com os recursos que se toma do banco é realizada de maneira muito mais aprofundada. Isso porque mais do que um cliente, quem trabalha com um banco islâmico acaba se tornando sócio dele.

EN - Existem também restrições a determinadas atividades, certo?
Ângela -
Sim. Indústrias como as de carne de porco e bebida alcoólica são proibidas. Então, um banco islâmico jamais financiaria a compra de grãos que fossem destinados à produção de bebida, por exemplo. A produção de armas e a indústria de jogos de azar também ficam de fora. A avaliação que se faz do projeto e da empresa é extensa. O financiamento a um hotel é perfeitamente possível. Mas se um cassino fizer parte do complexo, o negócio é inviabilizado. Ao fazer a avaliação é preciso ir bem fundo para entender se de alguma forma - direta ou indireta - esses recursos serão utilizados para financiar uma atividade que não seja permitida pela sharia.

EN - E se a empresa tiver no seu controle investidores judeus, por exemplo. Será que existe algum tipo de restrição?
Ângela -
Em tese não teria. Agora muito dificilmente uma empresa que tenha judeus no seu controle irá buscar algum tipo de financiamento islâmico. O simples fato de ser judeu para um muçulmano não teria essa restrição. Pode haver algum tipo de resistência em trabalhar em conjunto, mas não há qualquer espécie de restrição explícita. Eu nunca vi isso escrito em lugar nenhum.

EN - Conte-nos um pouco da sua história: como uma brasileira foi parar no mundo das finanças islâmicas?
Ângela -
Uma brasileira cristã, ainda por cima... e sem nenhuma gotinha de sangue árabe. Por isso achei todo esse mundo ainda mais fascinante. Se eu fosse muçulmana, talvez não fosse tão interessante, provavelmente eu já estaria acostumada com o que inicialmente vi de tão diferente. Quando vim trabalhar no ABC Brasil ele ainda se chamava ABC Roma e era controlado por Roberto Marinho. Era um banco brasileiro controlado por um grupo brasileiro. Mas desde 1997, quando o capital foi adquirido pelo Arab Banking Corporation, tomei contato com a existência dos títulos de financiamento ao comércio exterior, os murabahas. Consultei um colega que trabalhava na sede do ABC em Bahrain e ele teve o maior prazer em me explicar tudo.

EN - E você enfrentou algum tipo de dificuldade por ser mulher?
Ângela -
Por desconhecimento, no início, achei que poderia encontrar algum tipo de resistência, por ser mulher. Quebrei a cara. Acabei fazendo amigos fantásticos. Costumo dizer que o Oriente Médio é o lugar em que tenho mais facilidade de montar minha agenda. As pessoas chegam a desmarcar viagens para nos receber. Nunca tive de enfrentar nenhum tipo de situação complicada ou onde não fosse recebida de braços abertos. A primeira vez que visitei bancos islâmicos no Oriente Médio em 1997 cheguei até mesmo a visitar bancos islâmicos na Arábia Saudita, que é um país extremamente fechado. Precisei de uma autorização especial para visitar o banco, onde só entravam homens. Lá fiz a minha apresentação e tenho um ótimo relacionamento com eles. Outra coisa interessante é que nunca ninguém tentou me "catequizar", me convencer a mudar de religião. E isso eu acho muito fascinante. No começo até me perguntavam se eu era muçulmana e eu explicava que não e que não via razão para me converter já que meu marido e meus filhos são cristãos. Mesmo assim todos me respeitam muito como estudiosa e os executivos do banco têm grande orgulho do fato de eu ter escrito um livro sobre o tema. Eu costumo dizer que foi mais difícil a minha trajetória como mulher dentro da indústria financeira brasileira do que no âmbito dos bancos islâmicos, dentro do ABC.

EN - Você coordenou captações de recursos usando murabahas no início da década. O que vem a seguir para o Brasil no mercado de finanças islâmicas?
Ângela -
Estamos trabalhando numa operação grande, de empréstimo sindicalizado, que envolve vários bancos e sobre a qual infelizmente não posso dar maiores detalhes. A previsão é de que tudo esteja aprovado e pronto para ser divulgado até o final do ano. Mas, de toda maneira, acho que estamos num momento muito interessante. Os países emergentes e os investimentos alternativos estão em alta. Digo que aqui no ABC estamos no melhor de dois mundos. Somos um banco com capital majoritariamente árabe que atua num mercado aquecido para investimentos como o Brasil, que tem economia grande, diversifica e produz muito alimento num período em que o mundo está carente de alimento... Temos presença em três países produtores de petróleo, onde a riqueza vem crescendo à medida que os preços da commodity sobem. Então é muito natural que haja um interesse mútuo e cada vez maior em intensificar os negócios e, com isso, virão também as operações financeiras nos moldes islâmicos.


Fonte: Época Negócios

15.2.08

Por que o Ocidente despreza o Islã


Nas simplificações grosseiras sobre o mundo árabe, a vítima oculta somos nós mesmos. Ao projetarmos sobre o outro nossa visão de atraso, intolerância e fundamentalismo, não enxergamos como estão sob ameaça os melhores valores de nossa civilização


Cláudio César Dutra de Souza, Sílvia Ferabolli


Khaled Hosseini é um fenômeno editorial. Suas duas últimas publicações, O Caçador de Pipas e A Cidade do Sol, figuram nas listas dos mais vendidos nos Estados Unidos, na Europa e no Brasil. A obra de Hosseini é lida por um público ávido por entender como vivem “os muçulmanos”. E ele parece cumprir muito bem o seu papel de (des)informar leigos pelo mundo sobre o que vem a ser o modus vivendi islâmico.

Talvez essa não tenha sido a intenção do autor. Em seus livros, ele parece ser muito claro em situar seus personagens no interior do Afeganistão, mas como o entendimento dos conceitos religiosos, étnicos e de identidade nacional que definem muçulmanos, árabes e afegãos não é o forte da maioria da população, acabam todos sendo identificados, sem distinção, como seguidores do Islã. Essa associação não é de todo incorreta, já que a maioria dos árabes são muçulmanos, assim como o são os afegãos. O grande problema é associar o Islã com os segmentos mais retrógrados e atrasados da sociedade afegã – algo como definir o cristianismo como a religião que queima mulheres e hereges em fogueiras, permite a escravidão e silencia frente aos horrores do holocausto.

Em seu Orientalismo, Edward Said mostrou como a representação literária dos povos orientais, especialmente dos muçulmanos, como bárbaros, primitivos, violentos, decadentes e irracionais legitimou os interesses dos grandes poderes da era colonial. No pós-11 de setembro, a mídia de massas retoma o projeto orientalista e passa a demonizar os muçulmanos com vistas a iniciar um novo ciclo histórico de dominação e subjugação, agora comandado pelos Estados Unidos. Árabes, afegãos, paquistaneses, indonésios, indianos, enfim, qualquer indivíduo que ostente um turbante ou véu na cabeça, ou que pelo menos pareça alguém que usaria esse tipo de vestimenta, é quase que automaticamente definido como fanático, fundamentalista, atrasado e, a palavra do momento, terrorista. O entendimento do cidadão médio, filtrado por aquilo que deve ser mostrado, constrói um Islã wahabista, pleno de explosivos Osamas e reprimidas mulheres sob véus; um povo que corta mãos de ladrões, apedreja condenados até a morte e proíbe, tal como os talibãs, qualquer forma de prazer e diversão. Não é a toa que temos O Livreiro de Cabul, Mulheres de Cabul, qualquer coisa de Cabul vira best-seller e abastece o imaginário de milhões de cidadãos no Ocidente que se horrorizam e se deliciam com esse tipo de representação do “muçulmano”.

Uma época na qual a racionalidade parece estar em extinção

Além de servir às práticas de dominação política, militar e cultural norte-americana, essas projeções do “outro” também servem para reforçar a nossa suposta normalidade em face de um contraponto tão bizarro. Gostamos de nos imaginar como filhos da modernidade, livres de superstições e paixões primitivas que um dia fizeram parte da nossa história, mas que hoje, enfim, libertos, avançamos em direção a uma liberdade nunca dantes sonhada, liberdade essa que foi duramente atacada em 11 de setembro de 2001 pelos fanáticos de Allah.

Mas, sejamos pragmáticos: o que o mundo livre tem a ver com dois prédios destruídos em Nova York ou o que eles simbolizavam? Ficamos menos livres a partir daquele momento? Estamos sendo ameaçados? A resposta, se é que existe apenas uma, seria que, efetivamente, uma parte do mundo está menos “livre”, mas isso diz respeito àqueles poucos que gozam dessa liberdade tão duramente conquistada através de séculos de exploração colonial, invasões e desrespeito à soberania de inúmeros povos, que agora se insurgem de uma forma desagradável para quem pensava que a história havia chegado ao seu fim com o triunfo do capitalismo liberal. Não estaríamos nos focando excessivamente no chamado “fanatismo religioso” muçulmano e esquecendo que vivemos em uma época no qual a racionalidade parece estar em extinção? Fanáticos islâmicos versus fanáticos judeus e suas intermináveis políticas fratricidas; fanáticos católicos irlandeses e norte-americanos; fanáticos amishes; um renascido em Cristo na Casa Branca e um Papa de passado duvidoso, tão ou mais fundamentalista em sua leitura tendenciosa do mundo contemporâneo quanto o mais caricato dos Aiatolás.

Fanáticos os temos para todos os gostos, com a diferença, alguém notará, que “os nossos” não explodem. Ledo engano. Norte-americanos e israelenses explodem a tudo e a todos que ousem ir contra os seus “interesses de Estado”. Os Estados Unidos “previnem” e Israel “se defende”, exatamente do quê? Sim, dos bárbaros, fanáticos e torpes muçulmanos cuja diversão e meta suprema são a de destruir a cultura e a liberdade democrática do Ocidente e, neste ínterim, vão todos à mesma vala comum, do intelectual muçulmano (sim, eles existem!), à mãe de família árabe chegando ao talibã mais raivoso, passando pelos casseurs franceses e suas demais ramificações européias – e contra todos eles é lançado o anátema de terroristas ou fanáticos muçulmanos, em uma das mais absurdas e brutais demonstrações de racismo, ignorância e manipulação midiática da atualidade.

Como se em nossa sociedade as mulheres vivessem em integridade absoluta

O modo como as mulheres muçulmanas são tratadas constitui-se em um escândalo, como se em nossas sociedades as mulheres vivessem em um patamar de integridade absoluto e não fossem estupradas, agredidas e mortas, não bastando isso, ganhassem menos, mesmo trabalhando mais do que os homens, e ainda tendo de se submeter a todo o tipo de tratamento estético, cirúrgico e dietético que já ceifaram a vida de milhares de fêmeas modernas – mortes nas mesas cirúrgicas de lipoaspiração; morte por distúrbios alimentares como bulimia e anorexia; morte por intoxicação de produtos químicos fortíssimos que visam alisar, afinar, reduzir, rejuvenescer e infantilizar cabelos, corpos e mentes.

Durante a guerra da Bósnia, dentre as tantas atrocidades perpetradas contra o povo muçulmano, talvez a pior tenha sido aquela cometida contra suas mulheres. Segundo Tadeusz Mazowiecki, investigador de Direitos Humanos da ONU, que se afastou do cargo em protesto contra a impotência da organização frente aos horrores da guerra, a "limpeza étnica" não foi resultado de ações militares, mas o objetivo principal do conflito. Os sérvios, na sua maioria cristãos ortodoxos, usaram o estupro sistemático como arma de terror para obrigar a população não-sérvia a deixar a região. Mais de 20 mil muçulmanas foram violentadas. Houve casos de mulheres inválidas torturadas com tesoura e cacos de vidro antes de serem mortas. Algumas mulheres escaparam da morte, mas não da humilhação. Quando se viram grávidas de seus estupradores, o bom Papa João Paulo II exortou-as piedosamente a não abortarem essas inocentes vidas, sob ameaça de excomunhão e de uma ida sem retorno para um lugar bem quente no outro mundo...

Aliás, a igreja católica não flexibiliza a proibição do aborto em casos de estupro, nem em casos de fetos anencéfalos e muito menos se a gravidez trouxer risco de vida à mãe. Efetivamente, o cristianismo representado pelo Vaticano não se constitui em nenhum exemplo de tratamento às mulheres que o faça estar em posição de tecer críticas ao Islã. Da mesma forma que não pode endossar a falácia de que o Corão exorta a violência, o genocídio e a usurpação e que a expansão islâmica se fez através da morte, da chacina e do roubo (a propósito: você já leu o Corão?). É necessário recordar que a expansão do cristianismo foi forjada no aço das espadas e à custa de milhões de vidas perdidas e, apesar da recomendação de amor ao próximo dos evangelhos canônicos, a imagem que parece ter sido desenvolvida pelo apologista Paulo de Tarso foi a do Cristo da Espada, o que expulsou os vendilhões do templo a chibatadas, um discurso bem mais palatável para um agonizante e bélico império Romano recém convertido por razões bem mais políticas do que de fé (a propósito: você realmente conhece a história do cristianismo?).

Hanna Arendt já denunciava lobby sionista e superfaturamento do Holocausto

Quanto aos judeus, se foram perseguidos também foram perseguidores e, como “povo eleito” foram intolerantes contra os “não eleitos”, vide a vergonhosa política israelense em relação aos palestinos, confinados em bantustões, segregados, marginalizados e humilhados em nome da proteção dos cidadãos de Israel – mas quem protegerá os palestinos do terrorismo de Estado israelense? (a propósito: você lê jornais?) Na década de 1960, Hanna Arendt já denunciava o lobby da comunidade sionista norte-americana em prol de Israel, o superfaturamento do Holocausto e a participação dos conselhos judaicos na eliminação de seu próprio povo na Alemanha nazista, o que lhe rendeu censuras e ameaças, semelhantes àquelas que Norman Finkelstein recebeu ao publicar A Indústria do Holocausto na década de 1990, denunciando o devir persecutório dos perseguidos além de uma série de outras distorções políticas e ideológicas que infelizmente fazem sofrer não apenas o povo palestino como igualmente a população judaica e israelense, à mercê da manipulação de sua própria história e de seu sofrimento por uma pequena elite religiosa.

Pode ser o Islã hoje um retrato daquilo que o Ocidente foi antes do advento das luzes, momento em que a religião possuía um efetivo poder político e transcendental sobre corações e mentes e que unia os cidadãos em verdadeiras comunidades, ao contrário de hoje, quando a idéia de Deus segue o princípio narcisista-individualista de nossos tempos? Irá o Islã, algum dia, secularizar-se e seus líderes religiosos tornarem-se uma espécie de fantoches nostálgicos como é o Papa na atualidade? Qualquer que seja o cenário a se desenhar no futuro próximo, ainda teremos muitos anos de teocracias e líderes espirituais de diversos matizes a explorar questões políticas e atuar sobre os excluídos da globalização sob a mediação do discurso religioso – mas o Islã não está sozinho no monopólio do irracionalismo! Essa exclusividade é real apenas no contexto rasamente etnográfico dos “romances de burca”, e é uma pena que a leitura desses livros outorgue a um número cada vez mais expressivo de pessoas viciadas em best-sellers o direito de julgar 1,3 bilhões de muçulmanos tendo como ferramenta analítica, única e exclusivamente, esses mal escritos recortes tendenciosos da realidade.

Passivamente assistimos ao preocupante desmonte de uma série de mitos fundadores da chamada civilização ocidental. Rasgamos a declaração universal dos direitos do homem, herança da revolução francesa, e parece que estamos em vias de reverter os processos de descolonização do pós-guerra, em uma retomada de práticas extrativistas, desrespeito a soberanias nacionais e tentativas de imposição de valores que visam aniquilar as diferenças e promover a intolerância ou algum suposto choque de civilizações. Não aceitar a confusão entre os conceitos de resistência e terrorismo; entender que as mulheres muçulmanas, na sua maioria, não vivem cobertas por burcas, mas são advogadas, engenheiras, médicas, cineastas, jornalistas e professoras com ativa participação em suas sociedades; e ousar duvidar do que nos é informado pelas agências de notícias e intelectuais de diversos matizes — comprometidos com seus governos e seus próprios preconceitos, agindo em uníssono a fim de que tenhamos medo daqueles que ousam contestar a posição vassala que lhes cabe no latifúndio mundial — é condição necessária para que possamos promover um verdadeiro diálogo entre o Islã e o mundo tributário do Ocidente que, para ser realmente livre, precisa aprender a conhecer, compreender e respeitar as diferenças culturais.


Fonte: Le Monde Diplomatique Brasil


No topo do pódio com véu islâmico

Atleta muçulmana do Bahrein é campeã dos 400m rasos indoor nos Jogos Asiáticos



Com nuca e pesoços cobertos pelo véu islâmico, Ruqaya al-Ghasara, do Bahrein, vence prova dos 400m rasos em Doha



Enrolada na bandeira no Bahrein, a atleta sobe ao topo do pódio nos Jogos Asiáticos da capital do Catar

25.1.08

É o respeito que gera a igualdade

Ilma Maria Vieira, 51 anos, pedagoga, muçulmana

O profeta Mohamed nunca desrespeitou as outras religiões dos territórios conquistados pelo povo muçulmano. Nunca obrigou ninguém a se converter à força, pois, para o Criador, não existe diferença entre as pessoas por sua religião. Humildemente, procuro manter nas minhas relações pessoais e profissionais este respeito que o profeta nos ensinou. Sou professora de História e falo sobre todas as religiões, sempre com muito respeito e sem tentar impor nada a ninguém. Na sexta série, discutimos as religiões em sala de aula, como parte do programa curricular. Eu evito falar muito na minha, mas até pela minha aparência, os alunos têm curiosidade de saber mais. É interessante a reação deles depois que eles vêem filmes e descobrem diferentes costumes da religião muçulmana. Eles aprendem que algumas coisas são diferentes e começam a me cumprimentar com muito carinho, com uma expressão comum em minha religião: “assalámoalaikumwarahmatullah, professora!” (que a paz e as bênçãos de Alá estejam convosco). Eles também passam a se preocupar com os meus costumes e tradições, com a questão do véu, por exemplo, sempre me avisam se por acaso alguns fios de cabelo escaparam para fora. Fico comovida, pois essa é a maior prova que eles poderiam me dar de que as aulas estimulam a reflexão sobre as diferenças culturais e religiosas. Considero isso uma questão de respeito, uma maneira de entender o outro em seus sentimentos e valores. Procuro não trabalhar com a temática da igualdade, mas sempre com o respeito às diferenças. É o respeito que gera a igualdade.

NOTA: Essa entrevista é parte da matéria "Minha fé é o amor", veiculada na revista UMA.