15.2.08

Por que o Ocidente despreza o Islã


Nas simplificações grosseiras sobre o mundo árabe, a vítima oculta somos nós mesmos. Ao projetarmos sobre o outro nossa visão de atraso, intolerância e fundamentalismo, não enxergamos como estão sob ameaça os melhores valores de nossa civilização


Cláudio César Dutra de Souza, Sílvia Ferabolli


Khaled Hosseini é um fenômeno editorial. Suas duas últimas publicações, O Caçador de Pipas e A Cidade do Sol, figuram nas listas dos mais vendidos nos Estados Unidos, na Europa e no Brasil. A obra de Hosseini é lida por um público ávido por entender como vivem “os muçulmanos”. E ele parece cumprir muito bem o seu papel de (des)informar leigos pelo mundo sobre o que vem a ser o modus vivendi islâmico.

Talvez essa não tenha sido a intenção do autor. Em seus livros, ele parece ser muito claro em situar seus personagens no interior do Afeganistão, mas como o entendimento dos conceitos religiosos, étnicos e de identidade nacional que definem muçulmanos, árabes e afegãos não é o forte da maioria da população, acabam todos sendo identificados, sem distinção, como seguidores do Islã. Essa associação não é de todo incorreta, já que a maioria dos árabes são muçulmanos, assim como o são os afegãos. O grande problema é associar o Islã com os segmentos mais retrógrados e atrasados da sociedade afegã – algo como definir o cristianismo como a religião que queima mulheres e hereges em fogueiras, permite a escravidão e silencia frente aos horrores do holocausto.

Em seu Orientalismo, Edward Said mostrou como a representação literária dos povos orientais, especialmente dos muçulmanos, como bárbaros, primitivos, violentos, decadentes e irracionais legitimou os interesses dos grandes poderes da era colonial. No pós-11 de setembro, a mídia de massas retoma o projeto orientalista e passa a demonizar os muçulmanos com vistas a iniciar um novo ciclo histórico de dominação e subjugação, agora comandado pelos Estados Unidos. Árabes, afegãos, paquistaneses, indonésios, indianos, enfim, qualquer indivíduo que ostente um turbante ou véu na cabeça, ou que pelo menos pareça alguém que usaria esse tipo de vestimenta, é quase que automaticamente definido como fanático, fundamentalista, atrasado e, a palavra do momento, terrorista. O entendimento do cidadão médio, filtrado por aquilo que deve ser mostrado, constrói um Islã wahabista, pleno de explosivos Osamas e reprimidas mulheres sob véus; um povo que corta mãos de ladrões, apedreja condenados até a morte e proíbe, tal como os talibãs, qualquer forma de prazer e diversão. Não é a toa que temos O Livreiro de Cabul, Mulheres de Cabul, qualquer coisa de Cabul vira best-seller e abastece o imaginário de milhões de cidadãos no Ocidente que se horrorizam e se deliciam com esse tipo de representação do “muçulmano”.

Uma época na qual a racionalidade parece estar em extinção

Além de servir às práticas de dominação política, militar e cultural norte-americana, essas projeções do “outro” também servem para reforçar a nossa suposta normalidade em face de um contraponto tão bizarro. Gostamos de nos imaginar como filhos da modernidade, livres de superstições e paixões primitivas que um dia fizeram parte da nossa história, mas que hoje, enfim, libertos, avançamos em direção a uma liberdade nunca dantes sonhada, liberdade essa que foi duramente atacada em 11 de setembro de 2001 pelos fanáticos de Allah.

Mas, sejamos pragmáticos: o que o mundo livre tem a ver com dois prédios destruídos em Nova York ou o que eles simbolizavam? Ficamos menos livres a partir daquele momento? Estamos sendo ameaçados? A resposta, se é que existe apenas uma, seria que, efetivamente, uma parte do mundo está menos “livre”, mas isso diz respeito àqueles poucos que gozam dessa liberdade tão duramente conquistada através de séculos de exploração colonial, invasões e desrespeito à soberania de inúmeros povos, que agora se insurgem de uma forma desagradável para quem pensava que a história havia chegado ao seu fim com o triunfo do capitalismo liberal. Não estaríamos nos focando excessivamente no chamado “fanatismo religioso” muçulmano e esquecendo que vivemos em uma época no qual a racionalidade parece estar em extinção? Fanáticos islâmicos versus fanáticos judeus e suas intermináveis políticas fratricidas; fanáticos católicos irlandeses e norte-americanos; fanáticos amishes; um renascido em Cristo na Casa Branca e um Papa de passado duvidoso, tão ou mais fundamentalista em sua leitura tendenciosa do mundo contemporâneo quanto o mais caricato dos Aiatolás.

Fanáticos os temos para todos os gostos, com a diferença, alguém notará, que “os nossos” não explodem. Ledo engano. Norte-americanos e israelenses explodem a tudo e a todos que ousem ir contra os seus “interesses de Estado”. Os Estados Unidos “previnem” e Israel “se defende”, exatamente do quê? Sim, dos bárbaros, fanáticos e torpes muçulmanos cuja diversão e meta suprema são a de destruir a cultura e a liberdade democrática do Ocidente e, neste ínterim, vão todos à mesma vala comum, do intelectual muçulmano (sim, eles existem!), à mãe de família árabe chegando ao talibã mais raivoso, passando pelos casseurs franceses e suas demais ramificações européias – e contra todos eles é lançado o anátema de terroristas ou fanáticos muçulmanos, em uma das mais absurdas e brutais demonstrações de racismo, ignorância e manipulação midiática da atualidade.

Como se em nossa sociedade as mulheres vivessem em integridade absoluta

O modo como as mulheres muçulmanas são tratadas constitui-se em um escândalo, como se em nossas sociedades as mulheres vivessem em um patamar de integridade absoluto e não fossem estupradas, agredidas e mortas, não bastando isso, ganhassem menos, mesmo trabalhando mais do que os homens, e ainda tendo de se submeter a todo o tipo de tratamento estético, cirúrgico e dietético que já ceifaram a vida de milhares de fêmeas modernas – mortes nas mesas cirúrgicas de lipoaspiração; morte por distúrbios alimentares como bulimia e anorexia; morte por intoxicação de produtos químicos fortíssimos que visam alisar, afinar, reduzir, rejuvenescer e infantilizar cabelos, corpos e mentes.

Durante a guerra da Bósnia, dentre as tantas atrocidades perpetradas contra o povo muçulmano, talvez a pior tenha sido aquela cometida contra suas mulheres. Segundo Tadeusz Mazowiecki, investigador de Direitos Humanos da ONU, que se afastou do cargo em protesto contra a impotência da organização frente aos horrores da guerra, a "limpeza étnica" não foi resultado de ações militares, mas o objetivo principal do conflito. Os sérvios, na sua maioria cristãos ortodoxos, usaram o estupro sistemático como arma de terror para obrigar a população não-sérvia a deixar a região. Mais de 20 mil muçulmanas foram violentadas. Houve casos de mulheres inválidas torturadas com tesoura e cacos de vidro antes de serem mortas. Algumas mulheres escaparam da morte, mas não da humilhação. Quando se viram grávidas de seus estupradores, o bom Papa João Paulo II exortou-as piedosamente a não abortarem essas inocentes vidas, sob ameaça de excomunhão e de uma ida sem retorno para um lugar bem quente no outro mundo...

Aliás, a igreja católica não flexibiliza a proibição do aborto em casos de estupro, nem em casos de fetos anencéfalos e muito menos se a gravidez trouxer risco de vida à mãe. Efetivamente, o cristianismo representado pelo Vaticano não se constitui em nenhum exemplo de tratamento às mulheres que o faça estar em posição de tecer críticas ao Islã. Da mesma forma que não pode endossar a falácia de que o Corão exorta a violência, o genocídio e a usurpação e que a expansão islâmica se fez através da morte, da chacina e do roubo (a propósito: você já leu o Corão?). É necessário recordar que a expansão do cristianismo foi forjada no aço das espadas e à custa de milhões de vidas perdidas e, apesar da recomendação de amor ao próximo dos evangelhos canônicos, a imagem que parece ter sido desenvolvida pelo apologista Paulo de Tarso foi a do Cristo da Espada, o que expulsou os vendilhões do templo a chibatadas, um discurso bem mais palatável para um agonizante e bélico império Romano recém convertido por razões bem mais políticas do que de fé (a propósito: você realmente conhece a história do cristianismo?).

Hanna Arendt já denunciava lobby sionista e superfaturamento do Holocausto

Quanto aos judeus, se foram perseguidos também foram perseguidores e, como “povo eleito” foram intolerantes contra os “não eleitos”, vide a vergonhosa política israelense em relação aos palestinos, confinados em bantustões, segregados, marginalizados e humilhados em nome da proteção dos cidadãos de Israel – mas quem protegerá os palestinos do terrorismo de Estado israelense? (a propósito: você lê jornais?) Na década de 1960, Hanna Arendt já denunciava o lobby da comunidade sionista norte-americana em prol de Israel, o superfaturamento do Holocausto e a participação dos conselhos judaicos na eliminação de seu próprio povo na Alemanha nazista, o que lhe rendeu censuras e ameaças, semelhantes àquelas que Norman Finkelstein recebeu ao publicar A Indústria do Holocausto na década de 1990, denunciando o devir persecutório dos perseguidos além de uma série de outras distorções políticas e ideológicas que infelizmente fazem sofrer não apenas o povo palestino como igualmente a população judaica e israelense, à mercê da manipulação de sua própria história e de seu sofrimento por uma pequena elite religiosa.

Pode ser o Islã hoje um retrato daquilo que o Ocidente foi antes do advento das luzes, momento em que a religião possuía um efetivo poder político e transcendental sobre corações e mentes e que unia os cidadãos em verdadeiras comunidades, ao contrário de hoje, quando a idéia de Deus segue o princípio narcisista-individualista de nossos tempos? Irá o Islã, algum dia, secularizar-se e seus líderes religiosos tornarem-se uma espécie de fantoches nostálgicos como é o Papa na atualidade? Qualquer que seja o cenário a se desenhar no futuro próximo, ainda teremos muitos anos de teocracias e líderes espirituais de diversos matizes a explorar questões políticas e atuar sobre os excluídos da globalização sob a mediação do discurso religioso – mas o Islã não está sozinho no monopólio do irracionalismo! Essa exclusividade é real apenas no contexto rasamente etnográfico dos “romances de burca”, e é uma pena que a leitura desses livros outorgue a um número cada vez mais expressivo de pessoas viciadas em best-sellers o direito de julgar 1,3 bilhões de muçulmanos tendo como ferramenta analítica, única e exclusivamente, esses mal escritos recortes tendenciosos da realidade.

Passivamente assistimos ao preocupante desmonte de uma série de mitos fundadores da chamada civilização ocidental. Rasgamos a declaração universal dos direitos do homem, herança da revolução francesa, e parece que estamos em vias de reverter os processos de descolonização do pós-guerra, em uma retomada de práticas extrativistas, desrespeito a soberanias nacionais e tentativas de imposição de valores que visam aniquilar as diferenças e promover a intolerância ou algum suposto choque de civilizações. Não aceitar a confusão entre os conceitos de resistência e terrorismo; entender que as mulheres muçulmanas, na sua maioria, não vivem cobertas por burcas, mas são advogadas, engenheiras, médicas, cineastas, jornalistas e professoras com ativa participação em suas sociedades; e ousar duvidar do que nos é informado pelas agências de notícias e intelectuais de diversos matizes — comprometidos com seus governos e seus próprios preconceitos, agindo em uníssono a fim de que tenhamos medo daqueles que ousam contestar a posição vassala que lhes cabe no latifúndio mundial — é condição necessária para que possamos promover um verdadeiro diálogo entre o Islã e o mundo tributário do Ocidente que, para ser realmente livre, precisa aprender a conhecer, compreender e respeitar as diferenças culturais.


Fonte: Le Monde Diplomatique Brasil


No topo do pódio com véu islâmico

Atleta muçulmana do Bahrein é campeã dos 400m rasos indoor nos Jogos Asiáticos



Com nuca e pesoços cobertos pelo véu islâmico, Ruqaya al-Ghasara, do Bahrein, vence prova dos 400m rasos em Doha



Enrolada na bandeira no Bahrein, a atleta sobe ao topo do pódio nos Jogos Asiáticos da capital do Catar

25.1.08

É o respeito que gera a igualdade

Ilma Maria Vieira, 51 anos, pedagoga, muçulmana

O profeta Mohamed nunca desrespeitou as outras religiões dos territórios conquistados pelo povo muçulmano. Nunca obrigou ninguém a se converter à força, pois, para o Criador, não existe diferença entre as pessoas por sua religião. Humildemente, procuro manter nas minhas relações pessoais e profissionais este respeito que o profeta nos ensinou. Sou professora de História e falo sobre todas as religiões, sempre com muito respeito e sem tentar impor nada a ninguém. Na sexta série, discutimos as religiões em sala de aula, como parte do programa curricular. Eu evito falar muito na minha, mas até pela minha aparência, os alunos têm curiosidade de saber mais. É interessante a reação deles depois que eles vêem filmes e descobrem diferentes costumes da religião muçulmana. Eles aprendem que algumas coisas são diferentes e começam a me cumprimentar com muito carinho, com uma expressão comum em minha religião: “assalámoalaikumwarahmatullah, professora!” (que a paz e as bênçãos de Alá estejam convosco). Eles também passam a se preocupar com os meus costumes e tradições, com a questão do véu, por exemplo, sempre me avisam se por acaso alguns fios de cabelo escaparam para fora. Fico comovida, pois essa é a maior prova que eles poderiam me dar de que as aulas estimulam a reflexão sobre as diferenças culturais e religiosas. Considero isso uma questão de respeito, uma maneira de entender o outro em seus sentimentos e valores. Procuro não trabalhar com a temática da igualdade, mas sempre com o respeito às diferenças. É o respeito que gera a igualdade.

NOTA: Essa entrevista é parte da matéria "Minha fé é o amor", veiculada na revista UMA.




4.11.07

Uma outra imagem do Sudão

Christian Trombetta, suíço radicado no Brasil, passou quase três anos no país africano trabalhando na administração de acampamentos da ONU e outras organizações. Durante este período ele fotografou o cotidiano da população local, registros que mostram orgulho e esperança.




São Paulo – Registrar imagens pouco conhecidas do Sudão. Este foi o hobby de Christian Trombetta, suíço radicado no Brasil, durante o período em que passou no país trabalhando na montagem, administração e logística de acampamentos da Organização das Nações Unidas (ONU), entidades de ajuda humanitária e forças de paz. "Minha idéia era retratar um outro lado do país, verdadeiro, onde independentemente da guerra existem sorrisos e esperança nos olhos das pessoas", disse ele ontem (25) à ANBA.

Trombetta clicou crianças brincando, mulheres vestidas com roupas coloridas, homens em trajes tradicionais, cenas do cotidiano da população local. "Apesar de tudo há esperança, orgulho e uma certa beleza", disse. "A pobreza a gente já vê na televisão e nos jornais, mas ninguém mostra o lado bom do país", acrescentou.

Neste sentido, ele fez uma comparação com o Brasil. "Se você mostrar só o filme 'Tropa de Elite' lá fora, todo mundo vai pensar que o Brasil todo é assim", disse Trombetta, referindo-se ao filme recém lançado que mostra ações violentas do Batalhão de Operações Especiais (Bope) da Polícia contra traficantes no Rio de Janeiro.

Antes de ir para o país africano, Trombetta trabalhava com publicidade, marketing, organização e logística de eventos. Ele sempre atuou na área, mesmo sendo formado em direito. Veio para o Brasil em 1991, ao se casar com uma brasileira.

Durante um evento na Suíça, Trombetta foi convidado pelo Afex Group, empresa de capital norte-americano sediada no Quênia, a trabalhar no gerenciamento de acampamentos no Sul do Sudão. A Afex oferece serviços de suporte e logística para entidades e companhias em lugares remotos.

Trombetta esteve na região de 2005 até dezembro do ano passado, trabalhando em acampamentos nas localidades de Juba, Rumbek e redondezas. Foi aí que surgiu a idéia de começar a fotografar. "Gosto de arte, de pintar, mas no lugar onde eu estava não havia telas nem espaço. Então eu comecei a fazer fotos, durante o trabalho mesmo. Quando eu ia para alguma vila sempre levava a máquina", disse. "A realidade lá era como um filme e eu queria gravar as imagens desse filme."

Vida simples

Após décadas de guerra civil, um acordo de paz foi assinado em dezembro de 2004 entre o governo sudanês e rebeldes do Sul. Apesar do acordo ser considerado frágil, ele trouxe relativa estabilidade à região. Segundo Trombetta, gradativamente a atividade econômica tem retornado. "A população tem grandes esperanças no crescimento econômico, sobretudo em Juba", afirmou.

Lá estão instalados os órgãos da ONU e organizações não governamentais, o que ajudou a impulsionar o comércio local, além de criar empregos. Segundo Trombetta, empresas chinesas estão trabalhando na reconstrução de estradas, e outras companhias, especialmente dos Emirados Árabes Unidos, atuam na importação de bens de consumo e alimentos.

Além disso, as instituições de auxílio estão capacitando a população no uso racional da água e na agricultura. "Em Juba eles já plantam verduras, batatas, tomates", disse o fotógrafo amador. Parte dos habitantes atua no comércio, outros em pequenos serviços, como conserto de bicicletas, ou nas pesca durante a estação de chuvas, mas muitos ainda sobrevivem da ajuda de órgãos como o Programa Mundial de Alimentos da ONU. "É uma vida extremamente simples, eles vivem em cabanas ou em campos de refugiados."

No entanto, a principal atividade, segundo Trombetta, é a criação de gado. Ter bois é considerado um símbolo de status, e famílias que têm muitas reses são consideradas ricas. Os animais só são abatidos em ocasiões especiais, como casamentos e funerais. Na dieta do dia-a-dia estão mais presentes o leite de cabra e a carne de cabrito.

Trombetta afirmou que sempre foi tratado com muito carinho pela população local, pois sempre os tratou com respeito. Segundo ele, os dinka, uma etnia local, são muito orgulhosos e gostam de quem fala com a cabeça erguida. "É uma tradição tribal", afirmou.

Contraste

Para mostrar ao seu filho, hoje com 13 anos, e amigos a realidade do seu local de trabalho, Trombetta começou a postar suas fotos num blog e elas começaram a se espalhar pela internet. "Gente do mundo inteiro passou e entrar em contato comigo", disse.

Em janeiro deste ano, ele se mudou para Darfur, região do Sudão ainda em conflito, para trabalhar em um acampamento das forças de paz da União Africana, desta vez contratado pela PAE Government Services, que pertence à norte-americana Lockheed Martin. Lá a situação é diferente, a mobilidade era pouca e as saídas do campo eram realizadas somente com escolta armada. Mesmo assim Trombetta continuou a fotografar.

"Foi um contraste. Antes eu trabalhava em eventos de marcas famosas, como Louis Vuitton e Hugo Boss, o extremo do luxo europeu, e fui viver no meio de pessoas saídas de uma guerra", disse. Para ele, no entanto, foi a oportunidade de ver uma região que poucos conhecem. Lá, além das fotos, ele ajudou jovens a aprender informática. "Há muita busca por escolaridade", declarou.

Trombetta retornou ao Brasil em agosto, para ficar ao lado do filho. A temporada no Sudão era intercalada por quatro meses de trabalho contínuo com três semanas de férias. "Eu vi o que tinha que ver", disse. Agora ele quer mostrar o que viu para outros, pois pretende montar uma exposição de suas fotos e está um busca de um local e patrocinadores.

Contatos


Christian Trombetta
Tel: +55 (11) 3881-9377
E-mail: christian.trombetta@ticino.com
Site de fotos: www.picturesofsouthsudan.blog.kataweb.it


Fonte: ANBA


Conferência alerta para nova forma de preconceito contra muçulmanos

Córdoba (Espanha), 9 out (EFE) - Os participantes da Conferência sobre Intolerância e Discriminação contra os Muçulmanos, que começou hoje em Córdoba, no sul da Espanha, alertaram para a nova forma de preconceito representado pela "islamofobia" e pediram que a comunidade internacional adote medidas para prevenir este fenômeno.

Esta é a mensagem emitida pelo ministro de Assuntos Exteriores espanhol, Miguel Ángel Moratinos, na inauguração do fórum internacional, promovido pela Organização para a Segurança e a Cooperação na Europa (OSCE), que reúne na cidade espanhola representantes de mais de 60 países.

O ministro espanhol e atual presidente da OSCE ressaltou a necessidade de evitar o risco de que um novo fenômeno de xenofobia "perturbe as relações sociais e lese os direitos humanos e a segurança" dos muçulmanos.

Para ele, a islamofobia "é uma realidade que ameaça a convivência nas sociedades", e é um problema contra o qual é preciso "lutar e dispor de medidas de prevenção e alerta".

Moratinos admitiu que a ação do terrorismo internacional ajudou a alimentar este fenômeno, mas considerou "irresponsável" estender sua rejeição a todos os muçulmanos.

O secretário-geral da Liga Árabe, Amre Moussa, qualificou Córdoba de "um dos lugares mais importantes para a tolerância, praticada (no local) há dez séculos". Ele se referia ao fato de a cidade espanhola ter ficado sob domínio muçulmano entre os séculos VIII e XI.

Moussa destacou ainda o papel da Espanha na promoção do diálogo entre as culturas e da Aliança de Civilizações.

Em seu pronunciamento na conferência, o secretário-geral da Liga Árabe afirmou que o conflito entre o Islã e o Ocidente "carrega dentro de si a semente de um confronto a longo prazo", principalmente no Oriente Médio.

A culpa deste choque, acrescentou, é dos "extremismos" das duas civilizações e daqueles que defendem comportamentos "hegemônicos" e incentivam o que definiu como "anarquia criativa".

Para o dirigente árabe, a intolerância ao islamismo não tem origem nos atentados terroristas de 11 de setembro de 2001 nos Estados Unidos, e sim no fim da Guerra Fria.

Moussa censurou atos como a charge de Maomé e os que criticam a forma de viver dos muçulmanos que moram na Europa, e lembrou que aos ocidentais que viviam em países islâmicos há um século "ninguém perguntava por que se vestiam de uma maneira ou de outra".

"O Islã não é fácil de vencer; é fácil de conviver com ele", disse o responsável da Liga Árabe, organização que reúne 22 países.

Outro dos oradores na conferência, o alto representante da ONU para a Aliança de Civilizações, Jorge Sampaio, afirmou que iniciativas como esta reunião organizada pela OSCE podem ajudar na "compreensão" entre culturas e religiões e a superar a "ansiedade social" contra os muçulmanos.

Sampaio insistiu em que "não há lugar para soluções unilaterais ou isoladas" e, por isso, recomendou unir esforços entre organismos como a ONU e a OSCE.

O presidente da região de Andaluzia, Manuel Chaves, também discursou na conferência e ressaltou a importância de realizar encontros deste tipo.

Para ele, a visão da religião islâmica por parte do Ocidente "está freqüentemente carregada de um conjunto de estereótipos, percepções negativas e preconceitos".

Durante dois dias, representantes dos 56 Estados-membros da OSCE - entre países de Europa, Ásia Central, Estados Unidos e Canadá - e de nações associadas, como Marrocos, Argélia, Egito, Israel e Afeganistão, estudarão a intolerância contra os muçulmanos e recomendarão medidas para reduzir seus efeitos.

Os debates serão divididos em cinco mesas-redondas nas quais diversos especialistas discutirão o papel da imprensa e a importância da educação para superar os preconceitos contra os muçulmanos.

Fonte: UOL Notícias


23.10.07

Mutilação de clitóris atinge até 140 milhões de mulheres no mundo

Paris, 22 out (EFE).- Entre 100 e 140 milhões de mulheres sofreram ablação de clitóris no mundo todo, especialmente na África Subsaariana, mas também em outras regiões onde a prática é tradicional, e inclusive nos países da Europa e América do Norte, onde o total chega a 6,5 milhões.


Estas são algumas das principais conclusões de um relatório divulgado nesta segunda-feira pelo Instituto Nacional de Estudos Demográficos da França (Ined). O relatório rompe com a idéia de que a mutilação genital feminina é uma prática vinculada à religião muçulmana.

"O principal fator é o étnico, e não o religioso", ressaltam as autoras, Armelle Andro e Marie Lesclingand. A prática, observam, tem a ver com os ritos de iniciação e de entrada na idade adulta de alguns povos.

Andro e Lesclingand explicam que a ablação de clitóris era praticada na África muito antes da chegada das religiões monoteístas. A incidência geográfica corrobora que "não há relação entre a difusão do Islã num país e a proporção de mulheres afetadas pela mutilação", concluem.

Como exemplo, elas apontam o fato de que na Etiópia três quartos das mulheres sofreram a operação, mas os muçulmanos não passam de um terço da população. Já no Níger, só 2% foram mutiladas, quando o país é quase inteiramente muçulmano. Nos países do norte da África, onde a população é também quase 100% muçulmana, a cisão não existe.

Um caso interessante que confirma a tese das especialistas é o do Senegal, também majoritariamente muçulmano. A ablação não é praticada na população mais numerosa, a wolof, mas é relativamente freqüente em grupos minoritários, como os peul, os toulouleur, os soninké e os malinké.

Nos outros continentes, os principais focos nos quais a mutilação feminina é uma prática tradicional são certas partes do Oriente Médio e do sudeste asiático. Os índices mais altos são em países como Iêmen, Indonésia e Malásia.

A imigração levou a ablação a países europeus, como a França.

Segundo as estimativas do Ined, de 42 mil a 61 mil mulheres francesas sofreram a extirpação do clitóris.

As autoras do relatório constataram que a prática está retrocedendo na maior parte dos países. A tendência, avaliam, tem muito a ver com "o grau de mobilização dos Estados" e as recomendações internacionais explícitas contra a ablação nos anos 90. Elas destacam o protocolo assinado em 2003 por todos os países-membros da União Africana, que condena oficialmente e proíbe as mutilações sexuais.

Fonte: Yahoo Brasil


11.10.07

Primeiro astronauta muçulmano embarca à Estação Espacial Internacional, que terá mulher no comando


KUALA LUMPUR - O primeiro astronauta malaio e de religião muçulmana da História, Sheik Muszaphar, embarcou na manhã desta quarta-feira na nave Soyuz TMA-11, juntamente com o russo Yuri Malenchenko e a americana Peggy Whitson, rumo à Estação Espacial Internacional, na qual deverá acoplar no início da sexta-feira. O lançamento foi feito do cosmódromo de Baikonur, no Cazaquistão. Outra novidade da missão é que Whitson será a primeira mulher a comandar a estação.

- O lançamento transcorreu com normalidade - disse um porta-voz do Centro de Controle de Vôos Espaciais da Rússia.

Após se separar do foguete lançador, a nave russa se encontra em órbita.

- É um pequeno passo para mim, mas um grande passo para o povo malaio - disse Muszaphar, antes de embarcar, citando a célebre frase do astronauta americano Neil Amstrong, quando pisou na Lua pela primeira vez, em 1969.

O "angkasawan" (astronauta em malaio) passará oito dos dez dias da missão na estação. Nela, ele realizará experiências elaboradas por cientistas malaios, como um estudo sobre os efeitos da microgravidade e o uso de proteínas em uma vacina contra o HIV.

O cirurgião ortopedista de 35 anos foi escolhido para a missão há poucas horas, depois de vários meses de treinamento em bases russas e americanas ao lado de outro candidato malaio, o capitão do Exército Faiz Khaled. Muszaphar disse que, mesmo no espaço, vai rezar cinco vezes por dia, voltado para Meca, como manda a religião muçulmana.

A participação da Malásia na missão foi acertada durante uma negociação para a venda de aviões russos ao governo malaio.


Fonte: O Globo online

8.10.07

Estudante de Bangladesh cria robô inteligente com sucata

Aluno da graduação criou robô com peças recolhidas em lojas de eletrônicos e oficinas. Ele espera vender a criação, que atende a comandos sonoros, por menos de US$ 1 mil.

Um estudante da Universidade Islâmica Internacional em Chittagong, Bangladesh, está desenvolvendo um robô capaz de pegar objetos, mapear ambientes e realizar outras tarefa simples com apenas uma fração do custo de outros humanóides.


Feroz Ahmed Siddiky afirma que seu “IRobo” responde a comandos de voz, tem inteligência espacial e é barato por ser feito de sucata recolhida em lojas de eletrônicos e oficinas mecânicas.

“Além disso, esse robô irá atender a diferentes comandos verbais, realizando tarefas como mudar objetos de lugar, limpar superfícies e manter-se em guarda”, afirmou Siddiky. “Ele também poderá ser utilizado em alguns trabalhos arriscados, como em minas de carvão, onde os trabalhadores geralmente sofrem muitos acidentes”.

O estudante vem trabalhando no robô há dois anos e diz que precisa de mais um ano de trabalho de engenharia antes que ele esteja completo. Segundo Siddiky, ele já tem discutido sobre produção comercial do robô com uma empresa de softwares australiana. “Espero que as pessoas possam comprá-lo por menos de US$ 1 mil”, disse.


Fonte: Globo.com

1.10.07

Fundamentalismo Religioso

Abaixo estão trechos do artigo O DIÁLOGO EM TEMPOS DE FUNDAMENTALISMO RELIGIOSO do teólogo Faustino Teixeira. O artigo inteiro, com suas notas de referências, fornece reflexões e informações muito interessantes e oportunas, e os trechos apresentados aqui visam somente a divulgação do artigo e não substituem a leitura do artigo completo:

[...O fundamentalismo é uma realidade recorrente nas religiões nos tempos modernos, surgindo sempre como uma reação aos problemas da modernidade. Com respeito ao contexto religioso, este termo foi aplicado pela primeira vez por volta da passagem do século XIX para o século XX, referindo-se a um movimento teológico de origem protestante. Este movimento nasce nos Estados Unidos como reação ao modernismo e liberalismo teológico, e assume como bandeira as idéias de inerrância bíblica, de escatologia milenista e anti-ecumenismo...

...Sobretudo após os episódios violentos de 11 de setembro de 2001, a questão do fundamentalismo foi muito enfatizada pelos diversos meios de comunicação. Há uma tendência na mídia ocidental, fortalecida após esta data, de identificar e/ou reduzir o fenômeno do fundamentalismo à questão islâmica. Trata-se na realidade de um grande equívoco. Na verdade, a tendência fundamentalista irá marcar presença no Islã bem mais tarde do que a verificada nas outras duas grandes tradições monoteístas, ou seja, o judaísmo e o cristianismo. Esta tendência irá ocorrer no Islã sobretudo por volta dos anos de 1960 e 1970, em reação ao enraizamento da cultura moderna em solo muçulmano...

...Não há como desconhecer a presença do fenômeno fundamentalista em curso no Islã. Mas seria incorreto e equivocado concluir que todo o Islã é fundamentalista, como afirmou ultimamente o historiador inglês Paul Johson. Na verdade, “a atual explosão integralista, nas suas várias formas e facetas, significa certamente um fenômeno profundo e preocupante mas claramente minoritário (e se espera não duradouro) da secular tensão entre tradição e modernidade, entre sabedoria divina e sabedoria humana que caracteriza o Islã desde suas origens". As formas mais “explosivas” e contundentes dos movimentos islamitas acabam prevalecendo e abafando a realidade mais ampla e complexa do fenômeno do Islã. A exigência de uma relativização não invalida a importância de um trabalho crítico e científico que deve ser feito em favor da compreensão da tradição islâmica para além das transgressões que ela sofreu ao longo da história. Não se pode, entretanto deixar de acentuar a difícil e dolorosa situação que vem provocando a insurgência e afirmação fundamentalista no Islã. Embora seja difícil diagnosticar com precisão as causas deste fundamentalismo, não há como negar sua realidade de “efeito objetivo de fatores cuja eliminação requer nada menos que uma correção de rumos na estrutura de nossa modernidade”.]


Leia o artigo completo aqui

7.9.07

Comida Muçulmana Invade Nova York

Assista a reportagem do Jornal Hoje, que informa que a comida dos muçulmanos, conhecida como halal (*) , está agradando os nova-iorquinos e desbancando o famoso cachorro quente.

Link para o vídeo


(*) halal quer dizer "lícita", em árabe.



3.7.07

Programa brasileiro oferece bolsas no Egito

Por meio de uma parceria entre as unidades brasileira e egípcia da organização não governamental AFS Intercultural Programs é possível para alunos de escolas públicas fazer intercâmbio de um ano no país árabe. O catarinense Bruno Bortoli já participou e tem vontade de voltar ao Egito.

Marina Sarruf
marina.sarruf@anba.com.br

São Paulo – Os alunos brasileiros de escolas públicas municipais, estaduais ou federais também podem ter a oportunidade de fazer intercâmbio no exterior, inclusive num país árabe, como o Egito. Isso é possível devido à parceria entre as unidades brasileira e egípcia da organização internacional não governamental AFS Intercultural Programs, presente em mais de 50 países, que oferece bolsas de estudo para alunos carentes.

A AFS Intercultura Brasil, unidade brasileira, tem como objetivo promover o aprendizado intercultural por meio de intercâmbios entre os povos, principalmente para jovens que desejam estudar ou trabalhar no exterior. Este ano foram selecionados dois brasileiros, um de São Paulo e outro do Rio de Janeiro, para estudar no Cairo, capital do Egito, no ano que vem. Desde 2004, quando foi firmada a parceria entre as duas unidades, dois estudantes já ganharam bolsa de estudo.

De acordo com a assistente de marketing da AFS Intercultura Brasil, Luiza Fischer, a bolsa inclui um ano de estudo, passagens aéreas e seguro saúde. "Os alunos selecionados ficam durante um ano morando na casa de uma família, que também é voluntária, não recebe nada por acolher o estudante", afirmou.

Segundo Luiza, para concorrer às bolsas de estudo, os alunos devem ter entre 15 e 17 anos, terem boas notas e estarem regularmente matriculados na escola. "Além disso, o aluno tem que ser engajado socialmente e levar a causa da paz, que é um dos nossos objetivos também", disse. Os estudantes interessados passam por um processo seletivo feito por voluntários da AFS Brasil.

O estudante de Florianópolis, Santa Catarina, Bruno Bortoli, foi o segundo bolsista a participar do intercâmbio para o Egito. Ele foi para o Cairo em agosto de 2005 e voltou em julho do ano passado. "Escolhi o Egito porque era o país mais diferente e acho que quanto mais diferente é o país mais a gente aprende", disse ele que concluiu o último ano do Ensino Médio numa escola americana do Cairo.

De acordo com Bortoli, ele sempre teve curiosidade e vontade de conhecer o Egito. "Sempre tive interesse pela cultura árabe, pelos muçulmanos e pela própria história egípcia". No início, Bortoli estranhou, segundo ele tudo era muito diferente, desde a comida até os costumes. "Fiquei numa casa de uma família muçulmana. Tinha o pai, a mãe e cinco filhos, era uma família grande. Lá eles comiam muito, dançavam e cantavam bastante. Eu me apaixonei.”

A experiência para Bortoli valeu a pena. Ele disse que para se comunicar melhor com a família e os colegas aprendeu até a língua árabe. "Consigo entender mais do que falar, mas sei me virar", disse. "Penso muito em voltar para lá", completou. Atualmente, Bortoli, que está com 19 anos, está cursando duas faculdades, de Geografia, na Universidade de Santa Catarina (UDESC), e de Matemática, na Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC).

Outros programas

A AFS do Brasil também oferece programas regulares de intercâmbio, que são pagos, mas o aluno recebe todo o apoio da organização no país escolhido. Inclusive, existe atualmente um estudante no Egito fazendo intercâmbio pelo programa regular e para o ano que vem, além dos dois bolsistas, um outro aluno também escolheu o país árabe para fazer o intercâmbio.

De acordo com Luiza, também existe a possibilidade de trazer estudantes egípcios para o Brasil, mas até o momento ainda não houve interessados. Pelos programas da AFS do Brasil, cerca de 500 brasileiros vão para o exterior por ano, principalmente para os Estados Unidos, Canadá, Austrália e Alemanha. Já no caminho inverso o número é bem menor, cerca de 200 estrangeiros vêm para o Brasil pelo programa da AFS. Os intercambistas, na maioria, são da Alemanha.

Além dos programas de intercâmbio para estudantes, a AFS do Brasil oferece programas de estágio não remunerado, de trabalho voluntário, para professores e programa de intercâmbio intensivo Brasil-Alemanha.

Contato

AFS Intercultura Brasil
Tel: +55 (21) 3724-4464
Fax: (21) 3724-4400
Site: www.afs.org.br

Fonte: ANBA

26.6.07

Muçulmanos brasileiros sofrem de preconceito importado

Por Isabelle Somma

Uma pesquisa realizada pelo instituto Datafolha e divulgada pela Folha de S. Paulo em 6 de maio passado demonstra que no Brasil existe de fato preconceito contra muçulmanos. Para 49% dos entrevistados, a frase “os muçulmanos defendem o terrorismo” é verdadeira. A pesquisa entrevistou 5.700 pessoas entre os dias 19 e 20 de março de 2007, em 236 municípios de 25 unidades da federação. A margem de erro é de 2% para mais ou para menos e o nível de confiança é de 95%.

Esse fato não é novidade para a comunidade. Após 11 de setembro de 2001, até mesmo quem fazia curso de língua árabe na Universidade de São Paulo passou a ser visto com olhar de espanto pelos colegas. Para as mulheres muçulmanas, o preconceito é ainda mais evidente. Não é raro ver pessoas na rua apontando para uma passante que veste o hijab. Também não é raro ouvir pessoas comentando sobre a “burca” de uma muçulmana. Se nem mesmo o nome da vestimenta é conhecido, imagine o resto.

O preconceito é algo que homossexuais e negros sofrem diariamente neste país que se gaba pela tolerância. Mas, de todos os preconceitos, me parece que o contra os muçulmanos é o único “importado”. Explico: não temos uma história própria de intolerância contra a comunidade muçulmana. Ao contrário. Em lugares como Foz do Iguaçu, no Paraná, e São Bernardo do Campo, na Grande São Paulo, onde se encontram grandes contingentes de fiéis, jamais se registrou algum problema que pudesse gerar conflitos.

E não é apenas a maioria da comunidade muçulmana brasileira que vive em paz. Isso acontece no mundo inteiro. Outra pesquisa recente, realizada do Marrocos à Indonésia pelo Instituto Gallup, “The Gallup World Poll of Muslims from North Africa to Southeast Asia, Listening to a Billion Muslims”, demonstra que a maioria dos muçulmanos admira o Ocidente, em particular a tecnologia, o sistema democrático e a liberdade de expressão. A mesma pesquisa indicou que dos entrevistados, somente 7% eram favoráveis aos ataques que ocorreram em 11 de setembro de 2001.

Então, de onde vem essa desconfiança? Por um lado, acredito que a preferência de jornais, revistas e canais de televisão brasileiros em publicar assuntos associados a atos de violência é maior do que aos relativos a cultura. A cobertura é feita com base em reportagens enviadas de agências de notícias, jornais e revistas norte-americanos e europeus. Importamos a idéia de que há uma guerra de civilizações, em que muçulmanos estão querendo tomar o mundo e implantar uma visão radical de sua própria religião.

O que esquecemos, porém, é que esses meios de comunicação internacionais se coadunam com a velha visão de potências hegemônicas. Trazem a visão de que devemos dominar os bárbaros, sejam eles quem for, mas principalmente aqueles que vivem em cima do petróleo. Essas mesmas potências pretendem continuar hegemônicas e, por isso, tudo que as ameaça está em sua mira. E os meios de comunicação acompanham, sem ao menos duvidar das intenções de seus governos. O apoio em massa da mídia norte-americana à Guerra do Iraque é o exemplo mais notório.

O que fazer então? Talvez exercermos o direito que qualquer cidadão tem de duvidar e, principalmente, exigir coberturas mais justas e menos dependentes de visões importadas dos veículos de comunicação brasileiros. Independência de opinião nos faria muito bem.

Isabelle Somma é jornalista.

Fonte: Correio do Icarabe


21.6.07

Impressões do Norte da África


Viajar por Marrocos, Tunísia e Egito serve para desmistificar. A cultura é diferente, mas o povo é hospitaleiro. A barreira do idioma não é tão grande assim e o mercado é mais diversificado do que se imagina. Estas são algumas das impressões de um repórter que passou 11 dias na região.



Museu do Bardo, na Tunísia, amostra da riqueza histórica do Norte da África


Alexandre Rocha


alexandre.rocha@anba.com.br

São Paulo – É surpreendente! Esta foi a expressão utilizada por vários integrantes da missão empresarial brasileira que passou pelo Marrocos, Tunísia e Egito, entre o final de maio e o início de junho, organizada pela Câmara de Comércio Árabe Brasileira e pela Agência de Promoção das Exportações e Investimentos do Brasil (Apex). E a surpresa foi positiva, tanto do ponto de vista cultural, como de mercado.

Tanto no Egito, como na Tunísia e no Marrocos, o povo ouve muita música, seja nos restaurantes, cafés, no táxi, no supermercado. Geralmente música árabe. Fazem sucesso jovens cantoras e cantores que mesclam elementos folclóricos com ritmos pop. Toca muita música brasileira também, desde Tom Jobim, passando por Gilberto Gil e até a o Carrapicho: "Bate forte o tambor, eu quero é tic, tic, tic, tic, tac", cantava um trio no bar de nosso hotel no Cairo.

A presença brasileira pode ser vista também de outras maneiras, como na propaganda de uma churrascaria em nosso hotel no Marrocos, no anúncio de café no Aeroporto de Túnis, nas duas filiais do restaurante paulista Mori Sushi no Cairo e até numa velha Brasília que passou rodando na nossa frente nas ruas da capital egípcia.

Viajar por Marrocos, Tunísia e Egito serve também para desmistificar um pouco a questão do papel da mulher no mundo árabe. Nos três países muitas mulheres trabalham e ocupam cargos importantes nos setores público e privado.


Nota: Essa é uma versão editada da reportagem. Para lê-la na íntegra clique aqui.

Fonte: ANBA



20.6.07

Argelino mostra arte islâmica em Maricá


O desenhista e pintor Yevid Zedenny Al Zarhak Al Koef nasceu na Argélia, mas vive na cidade de Maricá, interior do Rio de Janeiro. No mês de julho ele fará uma exposição na sede do Grupo de Artistas de Maricá, onde vai mostrar quadros com paisagens de países muçulmanos. Algumas pinturas receberam aplicação de bordados ponto cruz feitos pela espanhola Haddad Medina Garcia.

Isaura Daniel
isaura.daniel@anba.com.br

São Paulo – No mês de julho, a sede do Grupo de Artistas de Maricá (GAM), que fica na cidade de Maricá, no estado do Rio de Janeiro, vai receber uma exposição islâmica de artes. A mostra ocorrerá entre os dias 06 e 29 de julho e vai apresentar as pinturas do argelino Yevid Zedenny Al Zarhak Al Koef e da bordadeira espanhola Haddad Medina Garcia. Al Koef, que nasceu na Argélia mas mora na cidade fluminense, produz quadros com pintura sobre papel e molduras de materiais recicláveis. Haddad, que é casada com o argelino, borda em ponto cruz sobre alguns desenhos de Al Koef feitos em etamine.

As peças do artista mostram elementos da religião islâmica como mesquitas e minaretes e também paisagens de países árabes muçulmanos pelos quais Al Koef já passou, como a sua nação de origem, a Argélia, a Tunísia e a Jordânia. "Eu faço pinturas sobre a minha terra porque sinto saudades de lá", diz. Ele também pinta lugares de outras regiões do mundo para as quais já viajou nos 21 anos em que trabalhou como diretor de uma multinacional. Uma rua de muçulmanos na Bósnia, por exemplo, já foi pintada por Al Koef. Os camelos também são figuras comuns em seu trabalho.

Al Koef, que se mudou para o Brasil ainda na adolescência, depois que teve aulas de geometria espacial em um curso preparatório do Colégio Pentágono para ingressar no Instituto Militar de Engenharia. "Percebi que a partir de um ponto podia fazer um espaço volumétrico", conta o artista. Al Koef começou então a desenhar para se distrair, em guardanapos de papéis de restaurantes. Depois foi aperfeiçoando o trabalho e passou também a pintar. "A minha mãe pintava. Ela me passou toda a sua experiência com cores", diz o argelino.

A vida de Al Koef, que tem 47 anos, sempre foi cheia de idas e vindas entre o Brasil e a Argélia. Os seus pais nasceram e moraram no Brasil, mas a sua avó paterna era argelina. Dessa maneira, o artista foi criado na Argélia por tios. Voltou para o Brasil para estudar. Al Koef fez vários cursos técnicos e se formou em Marketing pela Escola Superior de Propaganda e Marketing. Ele também estudou em outros países, como a Alemanha, e fez Mestrado em Finanças. "Minha distração sempre foi estudar", diz. Al Koef é muçulmano. A sua esposa, Haddad, nasceu no sul da Espanha e vive no Brasil há 19 anos.

A exposição no GAM terá um total de 121 obras. Algumas serão de pacientes do Hospital Dia, voltado para tratamento mental, onde Al Koef ensinou desenho e pintura. A exposição deve ter também artesanato de Maricá, que é semelhante ao de países muçulmanos, e peças de roupas do estilo usado em países islâmicos. A abertura da exposição ocorrerá às 19 horas do dia 06 de julho. Ela estará aberta para visitação de terça-feira a domingo, das 14h às 18h.

Serviço

Semana Islâmica de Artes
De 06 a 29 de julho
Das 14h às 18h
Na sede do Grupo de Artistas de Maricá (GAM)
Rua Álvares de Castro, 1277 - Orla de Araçatiba
Maricá, no Rio de Janeiro
Informações: (21) 2637-8021

Fonte: ANBA

16.6.07

Sushi brasileiro no Cairo

O Egito é um dos principais parceiros do Brasil no mundo árabe, mas agora, além de produtos como carne, açúcar e minérios, o país importou também a arte brasileira da fazer sushis, aprimorada durante os quase 100 anos de imigração japonesa. Dois estabelecimentos funcionam na capital egípcia com a marca Mori Sushi, restaurante fundado há 15 anos em São Paulo.

Aoyagi (E) e Morita passaram a ter uma outra imagem dos árabes após temporada no Cairo

Alexandre Rocha
alexandre.rocha@anba.com.br

São Paulo e Cairo – Não é de hoje que a culinária japonesa faz sucesso no Brasil. Em São Paulo, por exemplo, faz muito tempo que os restaurantes do gênero deixaram os limites do bairro da Liberdade, tradicional local de moradia de imigrantes japoneses e descendentes, para se espalhar por todos os cantos da cidade. Agora, porém, o know-how brasileiro na preparação de sushis e sashimis chegou ao mundo árabe.

Desde o início do ano funcionam no bairro de Zamalek, no Cairo, dois pontos-de-venda com a marca do Mori Sushi, criado em São Paulo há 15 anos pelo filho de japoneses Francisco Morita Filho. Um deles, na rua Gabalaya, é um restaurante japonês propriamente dito, o outro é um sushi bar instalado dentro do Sequoia, badalado restaurante na capital egípcia que mistura aromas e sabores de várias partes do mundo.

O Sequóia, aliás, é algo à parte. Localizado às margens do Nilo, com uma bela vista, o ambiente é amplo, arejado, com decoração moderna e tem um cardápio internacional que vai dos suhis às especialidades libanesas tão conhecidas no Brasil, como quibes e charutinhos. Lá é possível também se recostar nas confortáveis cadeiras rentes ao chão e fumar uma shisha, como é conhecido o narguilé no Egito, escolhendo entre fumos de diversos aromas, que vão da maçã, passando pela banana, pêssego, laranja, café, entre muitos outros.

Morita Filho, cujo pai era dono da antiga rede de Supermercados Morita, conheceu seu parceiro egípcio, o empresário Hossam Fahmy, no ano passado em São Paulo. Fahmy atua no ramo de calçados e estava no Brasil a negócios. “Ele comeu no restaurante, gostou e propôs a abertura no Cairo”, disse Morita à ANBA. “Na época eu estava tranqüilo com os negócios aqui e decidi ir atrás de uma nova experiência”, acrescentou.

A convite de Fahmy, o empresário brasileiro foi ao Cairo para conhecer a cidade e levar o negócio adiante. Além de ceder a marca, Morita também transferiu o know-how na preparação dos pratos japoneses. Seu sushiman, Aldo Aoyagi, passou três meses no Egito treinando colegas árabes na arte de fazer sushis à moda brasileira.

“Eles conheciam os sushis tradicionais, não os que temos aqui, inventados no Brasil”, disse Aoyagi, filho de pai japonês e mãe nissei. Durante sua estada no Cairo, ele introduziu ingredientes nas receitas como camarões empanados, cream cheese e frutas como morango e manga. A inventividade dos sushimen brasileiros pode ser comparada à dos chefs da cozinha contemporânea, que inclui a elaboração dos bolinhos de arroz acompanhados dos ingredientes mais simples, como atum e salmão crus, passando por frutas e vegetais tipicamente brasileiros, até foie gras.

A estadia e o salário de Aoyagi, que montou o cardápio básico do Mori no Cairo, foram pagos por Fahmy. “Dei prioridade para três sushimen, que já tinham alguma experiência, para que depois eles repassassem o que aprenderam para outros”, disse. “Fui muito bem recebido por lá, me trataram super bem, estive nas casas dos colegas e conheci suas famílias”, acrescentou.

Com a experiência, Aoyagi e Morita passaram a ter uma nova imagem do mundo árabe. Acostumados a ver no noticiário cenas de conflitos no Oriente Médio, eles encontraram no Egito um povo amável e hospitaleiro. “No plano pessoal, a experiência serviu para desmistificar a imagem que eu tinha da religião muçulmana”, disse Morita. “Ao chegar no Egito a gente encontra pessoas amigáveis. Você pode, por exemplo, andar na rua com uma máquina fotográfica sem ter medo de ser assaltado. As pessoas param para conversar, parecem até com os brasileiros”, acrescentou.

Segundo Morita, o acordo com o empresário egípcio não envolveu ganhos financeiros. “No longo prazo, a experiência, a ampliação do conhecimento, valem mais do que o ganho financeiro”, acrescentou. Assim como Aoyagi foi ao Egito, Fahmy enviou um funcionário seu, chamado Abdul Kareim, para passar uma temporada em São Paulo aprendendo com o dia a dia do Mori Sushi, que tem dois endereços na capital paulista, um em Perdizes, na zona oeste, e outro nos Jardins, na zona sul.

Imigrantes

Embora as culturas árabe e japonesa sejam bastante diferentes, suas presenças no Brasil têm traços semelhantes. Assim como reúne a maior coletividade árabe fora do mundo árabe, o país concentra também a maior colônia japonesa fora do Japão e, nos dois casos, São Paulo tem as maiores comunidades.

O início da imigração japonesa ao Brasil vai completar um século no próximo ano. Os primeiros japoneses chegaram ao Porto de Santos a bordo do Kasato Maru em 1908. Já os árabes começaram a desembarcar no Brasil no fim do século 19. No início, os integrantes das duas coletividades trabalharam em ramos diferentes, os japoneses principalmente na agricultura e os árabes no comércio. Hoje, porém, os descendentes destes imigrantes estão presentes em praticamente todos os segmentos da sociedade brasileira.

Outra semelhança é a presença cultural. Existem diversas entidades e agremiações de origem árabe e japonesa. Assim como é possível comer quibes, esfihas, homus e kaftas em qualquer ponto de São Paulo, se pode também saborear sushis, sashimis, tempurás e yakissobas em todo lugar, até em carrinhos de ambulantes nas ruas.

Se você quiser comprar um narguilé, ou shisha, basta ir à Rua 25 de Março, no centro da capital paulista, para encontrar um. Mas se você quiser preparar um bom sukyaki, tradicional ensopado japonês, é só ir ao bairro da Liberdade, também na região central da cidade, para se abastecer dos ingredientes.

Contatos

Mori Sushi
Tel: +55 (11) 3872-0976
Rua Melo Palheta, 284, Perdizes, São Paulo - SP

Mori Sushi Jardins
Tel: +55 (11) 3898-2977
Rua da Consolação, 3610, Jardins. São Paulo - SP

Mori Sushi Cairo
Tel: +202 135-0206
Rua Gabalaya, 19, Zamalek, Cairo

Sequoia
Tel: +202 735-0014
Rua Abu El-Feda, Zamalek, Cairo


Fonte: ANBA

6.6.07

Mohammed é o segundo nome mais popular dado a bebês britânicos

Quase 6.000 recém-nascidos receberam o nome, em 12 variações, só em 2006. O nome mais comum dos bebês da Grã-Bretanha é Jack.


Mohammed se tornou o segundo nome mais popular para os recém-nascidos no Reino Unido e, em breve, pode se transformar no primeiro, segundo um estudo do jornal "The Times".


No total, 5.991 bebês que nasceram no país em 2006 receberam este nome - em uma de suas 12 diferentes variações -, que ficou imediatamente atrás de Jack, o mais popular, e à frente em popularidade de Thomas, Joshua e Oliver.


A escolha do nome deve-se ao crescente número de jovens muçulmanos que têm filhos, unido ao desejo de fazer uma homenagem ao profeta Maomé.


Segundo Muhammad Anwar, professor de Relações Étnicas da Universidade de Warwick, "os pais muçulmanos querem ter algo que mostre um vínculo com sua relação ou com o profeta".


Para o mufti Abdul Barkatullah, ex-imã da mesquita londrina de Finchley, "os pais que dão esse nome a seus filhos acham que terá um efeito sobre sua personalidade e seu caráter".


Se a atual tendência for mantida - a freqüência de escolha do nome aumentou 12% em 2006 -, Mohammed, que passou a figurar entre os 30 preferidos em 2000, ocupará o primeiro lugar ainda neste ano.


Com 1,5 milhão, os muçulmanos representam apenas 3% da população do Reino Unido, mas os membros desta religião têm em média três vezes mais filhos que os não-muçulmanos.


Segundo estatísticas oficiais, uma família muçulmana média era formada por 3,8 pessoas, enquanto um terço das famílias desta religião tinha mais de cinco integrantes.


O nome preferido das filhas de pais muçulmanos é Aisha, que, em 2006, ocupava apenas a 110ª posição de preferência.


Fonte: Globo.com

4.6.07

Famílias de Srebrenica processam ONU e Estado holandês

Reuters/Brasil Online

Por Harro ten Wolde

HAIA (Reuters) - Parentes das vítimas do massacre de Srebrenica, em 1995, processaram na segunda-feira o Estado holandês e a Organização das Nações Unidas por permitirem que muçulmanos fossem mortos por forças sérvio-bósnias.

Advogados disseram que a Holanda é culpada por recusar apoio aéreo para suas próprias tropas que defendiam a cidade bósnia de acordo com um mandato da ONU, abrindo caminho para os assassinatos de 8 mil a 10 mil homens e garotos.

Cerca de 200 mulheres, parentes das vítimas de Srebrenica, marcharam até o gabinete do primeiro-ministro holandês, Jan Peter Balkenende, e entregaram documentos legais.

Carregando faixas com os nomes das vítimas, as mulheres caminharam silenciosamento em círculos do lado de fora do ministério, perto do Parlamento, por mais de uma hora.

"Esperei 12 anos por isso, pode ser uma outra injustiça se levar muito tempo de novo", disse Munera Subasic, presidente da Fundação de Mães de Srebrenica.

Durante a guerra da Bósnia, de 1992 a 1995, Srebrenica foi declarada área segura e guardada por uma unidade do Exército holandês que servia como parte de uma força maior da ONU na Bósnia.

Os soldados holandeses, levemente armados e sem apoio aéreo, foram forçados a entregar o enclave às forças sérvio-bósnias, que massacraram homens e garotos muçulmamos que confiavam na proteção das tropas holandesas.

Fonte: O Globo Online


29.5.07

Feira de produtos de beleza movimenta Arábia Saudita

Silwan Abbassi*

Brasília - Começou ontem (28) em Riad a feira Lady Beauty. Com três dias de duração, a feira conta com a participação de mais de 100 companhias nacionais e internacionais especializadas em produtos de beleza femininos. Após o sucesso da feira no ano passado, o número de participantes aumentou de modo significativo este ano. As informações são do jornal saudita Al Riyadh.

Promovida no Four Seasons Hotel, em Riad, a Lady Beauty é uma das maiores feiras do setor de produtos de beleza na região. A organização espera mais de 20 mil mulheres na feira este ano. O valor total dos produtos expostos é de aproximadamente 200 milhões de riais sauditas (US$ 53 milhões). Os últimos lançamentos do mundo dos cosméticos e da moda serão apresentados ao público, predominantemente feminino. Novos tratamentos de beleza serão apresentados pela primeira vez no mercado saudita.

Com o aumento no número de companhias participantes neste ano, a feira gerou mais de 180 empregos para mulheres até agora, a maioria deles em marketing e vendas. A indústria da beleza está crescendo de forma nunca vista no Oriente Médio, principalmente na Arábia Saudita, onde foram abertas lojas e grandes centros que oferecem todos os programas modernos de tratamento de beleza para mulheres.

De acordo com o jornal Arab News, Hammed Al-Hushan, secretário do Comitê Nacional de Companhias Expositoras da Arábia Saudita, disse que haverá 400 feiras no país durante o verão. Cinqüenta e cinco dessas feiras serão voltadas exclusivamente para produtos femininos. Segundo Abdullah Al-Gubairy, membro do Comitê de Conferências e Showrooms da Câmara de Comércio, as feiras para mulheres correspondem a 15% do total de feiras comerciais que acontecem no país.

"As feiras comerciais desempenham um papel econômico e social no país. O mercado saudita precisa de mais feiras voltadas ao público feminino e das quais companhias populares possam participar. Isso dá às mulheres a oportunidade de escolher seus produtos cosméticos, roupas e jóias favoritas, além de conhecer as mais novas marcas e produtos sem ter que sair do país", disse Nabilah Yagmour, especialista em gerenciamento de show rooms. Nos últimos anos, as feiras de produtos femininos têm gerado centenas de empregos temporários para as mulheres sauditas, entre as quais há um alto índice de desemprego.

*Tradução de Gabriel Pomerancblum

Fonte: ANBA

26.5.07

Pela Paz


Este ano marca o 40º aniversário da chamada Guerra dos Seis Dias, que resultou na ocupação por Israel dos territórios palestinos de Gaza e Cisjordânia, das colinas de Golan (Síria) e do deserto do Sinai (devolvido ao Egito, em 1982, em troca de um tratado de paz). Também foi conquistada a parte oriental de Jerusalém, que poucos países reconhecem como capital de Israel.

A experiência da ocupação provou que não há solução militar para o conflito palestino-israelense e que a paz é vital para os dois povos. Escaramuças permanentes, onde não faltam atos de terrorismo e violações das leis internacionais, trazem sofrimento e tensão para ambos os lados. Uma cultura de ódio e segregação dificulta o trabalho de aproximação e reconhecimento. O fundamentalismo religioso, presente em ambas as partes, apimenta a situação.

Organizações não-governamentais de Israel e dos territórios palestinos, juntamente com personalidades comprometidas com a solução do conflito, lançaram a Iniciativa Cinco de Junho para a Paz Israelense-Palestina (www.june5thinitiative.org). Durante uma semana, a partir do próximo dia 5 de junho, serão convocadas manifestações em muitos países, imantadas pelo princípio de Dois Povos, Dois Estados, Uma Paz. A intenção é mobilizar o maior número possível de pessoas e entidades para que pressionem as lideranças de ambos os povos com vistas a discutir seriamente um acordo de paz. A base do diálogo seriam as fronteiras de junho de 1967. Já há adesões em países como Austrália, Estados Unidos, Bélgica, Canadá, Egito, França e Jordânia, em uníssono com pacifistas de Jerusalém, Ramala, Tel Aviv e Gaza.

A ASA considera relevante esta proposta, embora ela não contemple questões delicadas como a situação dos refugiados palestinos (mais de 4 milhões, segundo a ONU) e o status final de Jerusalém. Entretanto, tendo em vista a animosidade acumulada em décadas de conflitos intermináveis, ela pode ajudar a quebrar a couraça e mandar um sinal claro para os beligerantes: setores importantes das comunidades judaica e árabe condenam a carnificina e defendem o direito de israelenses e palestinos viverem em paz, segurança e prosperidade. Se árabes e judeus marcharem juntos nas ruas de muitos países, estará criado um fato político denso. Ficaremos ao lado daqueles que, no Brasil, se incorporarem a este movimento.

Fonte: ASA


Irã - um ponto de vista

por Michael Gordon

Sob a sombra dos atentados terroristas recentes, uma imagem vem a minha cabeça: um mulá na rua Ferdosi, centro de Teerã, me explicando como chegar ao cemitério judaico. Mas poderia ter me lembrado de outra cena. No mesmo cemitério, uma tumba de um jovem judeu que morreu na guerra contra o Iraque. Quem diria? Quem poderia imaginar que um judeu daria sua vida pelo regime do aiatolá? É assim que vivem os judeus iranianos. Têm seus cemitérios, suas sinagogas, seus clubes, trabalham no comércio, são médicos, professores etc. Há apenas uma exigência para que essa paz não seja destruída: devem ser contrários à existência do Estado de Israel. Evidentemente essa não é uma tarefa fácil. Os judeus do mundo todo rezam pedindo que no ano seguinte estejam em Jerusalém! Nem todos os judeus iranianos seguem à risca essa recomendação, eles dão um jeito, arrumam estratagemas para visitar Israel, mas se são pegos nessa empreitada, têm seus passaportes confiscados e não podem sair do país por vários anos.

O roteiro preferido para essa viagem é através da Turquia ou Chipre. No aeroporto israelense já é praxe carimbar o visto num papel separado e não no passaporte, justamente para casos como esses.

Há alguns anos, treze judeus foram presos, acusados de espionagem para o Estado de Israel. Em sua maioria, são professores de Teologia das cidades de Isfahan e Shiraz, no centro sudoeste do país. A prisão fica em Shiraz e atualmente onze permanecem presos e sem julgamento. Nem o próprio Khatami, o presidente legitimo, com quase 80% dos votos, pode fazer alguma coisa, já que, no poder judiciário, quem manda é o aiatolá Khamenei, sucessor de Khomeini desde 1989.

Na sede do Jewish Committee, em Teerã, encontrei algumas fotos do funeral do aiatolá que mudou a história do Irã, transformando-o na primeira república islâmica do mundo. Interessante foi observar um grupo de judeus em luto pela morte deste líder, que pregou a destruição de Israel. Segundo os próprios judeus que encontrei pelos corredores, ele foi um bom homem, inclusive para os judeus, mantendo uma espécie de proteção aos judeus e cristãos, como os dhimmi, os "protegidos" do Império Otomano, que, embora fossem designados por este termo no mundo islâmico, tinham que pagar impostos mais elevados e de vez em quando sofriam perseguições.

Claro que a maioria dos judeus saiu do Irã após a revolução de 1979, assim como saíram do Marrocos após a independência deste, em 1956. Embora eles tenham sempre tido um status de minoria protegida nos países islâmicos, desde a criação de Israel as hostilidades aumentaram e esses países passaram a tratar os judeus como possíveis espiões do Estado judeu. Mas, ainda assim, o Irã engolfa a maior comunidade judaica do Oriente Médio. Não só a maior, como uma das mais antigas, remontando aos tempos dos aquemênidas, muito antes do islamismo se tornar a religião oficial dos persas. Naquele tempo, a religião oficial era o zoroastrismo, e ainda hoje existem praticantes, principalmente em Yazd, onde está o Ateshkade, o templo zoroastrista que guarda a chama eterna.

Essa comunidade está dividida por várias cidades. Teerã, a capital, abriga cerca de doze mil judeus e tem mais de vinte sinagogas, sendo as principais Abrishami e Youssefabad. Em Shiraz encontra-se o segundo maior grupo, oito mil judeus. Isfahan tem cerca de mil e quinhentos e outras cidades abrigam pequenos grupos de cem, as vezes cinqüenta; em Kerman, sudeste do Irã, havia cerca de trinta judeus. A cidade baixa, onde eles vivem, não tem ruas asfaltadas, mas tem uma belíssima sinagoga. Dentro dela há um telefone para chamar os poucos adultos que formam o minian, os dez homens necessários para que se dê início aos serviços religiosos.

Uma das mais agradáveis surpresas da viagem foi a visita ao mausoléu de Esther e Mordechai, os protagonistas de uma das mais belas histórias judaicas, que está inserida na Bíblia, no Livro de Esther. Esse mausoléu se encontra em Hamadã, cidade próxima ao Iraque, e próxima ao sítio arqueológico de Shush, onde supostamente os dois viveram.

No extremo oposto do país, na cidade de Mashad, encontra-se o maior centro de peregrinação do Islã: o túmulo do imã Reza. Os imãs são os profetas do islã. Enquanto os sunitas acreditam em apenas três, os xiitas acreditam em doze, sendo que o último, o imã Zaman, ainda vai chegar (* VER NOTA). O único dos imãs que está enterrado no Irã é o oitavo, Reza, que foi envenenado e morreu em 817. Portanto, esse local é sagrado apenas para uma pequena parte dos muçulmanos, já que a grande maioria é sunita.

O Irã dos contrastes preserva na indumentária feminina a insígnia de seu fundamentalismo. Nada comparado ao vizinho Afeganistão, mas, mesmo assim, os direitos adquiridos nas últimas décadas pelas mulheres ocidentais estão longe de ser alcançados pelas iranianas. Entretanto, muitas delas aprovam o uso obrigatório do xador, o manto preto que as cobre dos pés aos cabelos. Elas acreditam que o pano é uma ferramenta de segurança para a mulher nas ruas.

Os costumes são diferentes e há certas regras que não compreendemos. Parece-nos difícil de entender a necessidade do uso do xador. As mulheres não podem sair de casa sem se cobrir e isso soa como um cerceamento dos direitos da mulher, o que não deixa de ser verdade. Apenas devemos analisar e buscar respostas de acordo com os costumes islâmicos. Os próprios judeus iranianos aprovam o uso do xador para suas mulheres, afirmando que o judaísmo também proíbe as mulheres de mostrar seus cabelos. Às vezes surge entre nós uma sensação de retrocesso na vida dessas pessoas. Mas essa não é a pura expressão da verdade. Nós temos muito a aprender com os iranianos, particularmente com relação à sua hospitalidade.

OLHO - Interessante foi observar um grupo de judeus em luto pela morte de Khomeini.

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Michel Gordon, 26 anos, é doutorando em Física dos Oceanos pela USP e viajou ao Irã para tentar entender como vivem os judeus num país islâmico fundamentalista.

Fonte: ASA


* NOTA: Os imames não são os profetas do Islã. São líderes religiosos. Mesmo para os xiitas eles não são considerados profetas, mas líderes religiosos inspirados por Deus. Os sunitas não consideram que seus imames sejam inspirados por Deus e os vêem como pessoas comuns.